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Crónicas

O rapaz dos óculos

O rapaz usava óculos, não era bonito e fazia parte do grupo do meu irmão era dos que iam com ele à praia ou beber cerveja ou às matinés das discotecas

Eu tinha 16 anos e não sabia sequer o que se podia sentir por um rapaz quando, na volta da Penha de Águia e depois de comer um bolo com chantilly e um sumo de laranja da máquina, houve um que deu por mim. As coisas ainda eram assim, os rapazes descobriam as raparigas e, se tivessem coragem, diziam qualquer coisa tola ou simpática ou o que saísse na altura. Aquele reparou na fita de cetim que levava no cabelo, era azul e era a última moda do liceu, mas eu tinha pressa para as aulas. Não sei se era História ou Geografia, era das que eu tirava 17 valores nos testes e nada me entusiasmava mais do que as notas que levava para casa para provar à minha mãe a escolha acertada que fizera ao optar por Letras e Humanidades.

O rapaz usava óculos, não era bonito e fazia parte do grupo do meu irmão, era dos que iam com ele à praia ou beber cerveja ou às matinés das discotecas e dos que paravam no Apolo a conversar de assuntos muito importantes como carros e ralis. E era mais velho, teria 18 ou 19 anos, e, na tarde em que reparou em mim pensei que estaria entediado, ali à porta da pastelaria onde todas as miúdas do Girassol iam lanchar. A Lina Marta que usava fitas de cetim e de renda no cabelo não cumpria os requisitos para despertar o interesse daqueles adolescentes, carregados de hormonas, com borbulhas na cara e posters da Samantha Fox no quarto. Eu era o contrário disso tudo e, embora tirasse 16 e 17 nos testes, chumbaria com toda a certeza na arte da sedução, dos olhares e de todo aquele mundo de que ouvia falar desde os 13 anos.

Todas as minhas colegas, as mais próximas e as mais distantes, pareciam ter vindo com um radar instalado que lhe permitia descobrir quem olhava, como olhava e o que significava cada olhar, que era estudado e escrutinado até ao mais ínfimo detalhe. O olhar era uma linguagem complexa demais para aquela miúda de 16 anos que, todos os dias, corria para o autocarro, depois para as aulas e voltava a casa com a cabeça ocupada com livros, notas e que habitava um corpo estranho, que lhe tinha surgido sem pedir licença. E, embora seguisse todas as novelas que davam depois do telejornal e falavam de amor, estava convencida que, para sentir aquilo que via, era preciso ser bonita e misteriosa. Eu tinha visto os desgostos nas raparigas mais velhas do grupo de jovens, tinha estado lá a tentar acalmá-las sem saber que tormenta era aquela que as fazia chorar.

E, se um rapaz mais velho me tinha atirado um piropo, eu tinha a certeza que isso resultava de um acaso, daqueles que juntavam as estrelas e os planetas num certo alinhamento para se desfazer logo depois. Mais ou menos como o cometa Halley, que tinha estado no céu à vista no ano anterior e que só voltaria aparecer daí a 75 anos. Se tivesse sorte, talvez voltasse a vê-lo, ao cometa, mas teria 90 anos e também acreditava que só as pessoas bonitas, misteriosas e novas se podiam apaixonar e passar por aquele estado, que ia da agonia à mais profunda felicidade. Quanto ao jovem de óculos, esse, não me iria reconhecer entre as centenas de miúdas que, todos os dias, gravitavam entre o liceu, o mercado, a porta de entrada do Girassol e os corredores do anexo quente e sem condições onde se lecionava Letras e Humanidades.

Mas, no dia seguinte e nos dias a seguir a esse, o rapaz, que estava no último ano do liceu, apareceu à porta da pastelaria e voltou a comentar o cabelo, depois o sorriso e, os dias fizeram semanas, e ele quis saber o meu nome. E corei de vergonha quando, enquanto a professora de Português dava o teatro de Gil Vicente, ouvi gritar o meu nome do lado de fora da janela e a turma se desfez em risadinhas. Lembro-me que carreguei o embaraço escada abaixo e não olhei para ninguém, mas na tarde seguinte estava à porta da minha sala e convidou-me para ir lanchar ao bar da escola, que ficava no último andar e tinha vista para o mercado e a fábrica Insular. E foi lá, num banco a um canto, que me pediu namoro, era uma coisa que ainda se fazia, mas eu não me sentia misteriosa, nem bonita e não sabia o que responder.

Podia ter dito que ia pensar, mas disse que sim e, de uma vez só, enfrentei a minha mãe, o meu pai e as minhas tias, as risadinhas da turma e a cidade inteira quando lhe dei a mão depois das aulas e fomos juntos até à paragem do autocarro. Faltavam 15 dias para as férias da Páscoa e a minha decisão causou um terramoto em casa. Sempre tão ocupados nos seus enredos e preocupações, não deram pela Lina Marta que, sem perceberem como, era agora uma adolescente morena, que cortara o cabelo e pusera de lado os laços no cabelo e que os enfrentava sem recuar. O namoro acabou no fim das aulas quando o rapaz fez as malas e voou para a família, que já não estava na Madeira e ainda trocámos umas cartas antes de tudo se esfumar para sempre, tão suave e natural como tinha começado.

E, dessa história, guardo a minha emancipação, ter dito que sim, ter enfrentado os preconceitos do Laranjal, onde não havia namoros sem noivado, e ter aberto as portas para um dos meus melhores Verões e para todos os planos que fiz depois. O rapaz, esse, nunca mais o vi.