O dia em que uma onda de água e lama varreu povoações nos Himalaias
O Nepal sofreu hoje uma inundação catastrófica no norte, especialmente o distrito de Rasuwa, perto da fronteira com o Tibete, na China, com um balanço provisório de 98 mortos e quase um milhar de desaparecidos.
Enquanto os trabalhos de resgate continuam nesta zona montanhosa do país dos Himalaias, estes são os pontos principais sobre a catástrofe, num trabalho da agência espanhola EFE:
O que aconteceu?
A vaga de água e lama atingiu por volta das 09:15 locais (04:30 em Lisboa) o rio Bhotekoshi a partir da zona tibetana e afetou com particular gravidade as localidades de Timure, Rasuwagadhi e Syabrubesi, segundo fontes oficiais.
A água atingiu também o território chinês.
Dezenas de imagens de câmaras de vigilância mostram pequenas povoações inteiras, albufeiras, pontes e outras infraestruturas a serem completamente destruídas quando o rio que as atravessa sobe repentinamente, enquanto dezenas de pessoas correm a tentar fugir das inundações.
As autoridades mobilizaram as forças de segurança e as equipas de emergência enquanto tentavam determinar a dimensão dos estragos e localizar as pessoas que permaneciam incontactáveis.
Qual é o balanço provisório?
As autoridades do Nepal informaram que foram recuperados 98 corpos nas zonas afetadas pela enxurrada do rio Bhotekoshi.
No lado da China, as autoridades deram conta de três mortos no condado tibetano de Gyirong, segundo um primeiro balanço divulgado pelo canal estatal CCTV.
A China reportou também 265 desaparecidos, enquanto o balanço nepalês soma 484 turistas incontactáveis, além de 44 membros do exército, 28 polícias, 13 efetivos da Força Armada de Polícia e 60 trabalhadores de vários projetos hidroelétricos.
Ou seja, quase 900 desaparecidos no total.
Entre os turistas desaparecidos no Nepal, 93 são nepaleses e 391 são estrangeiros, incluindo uma portuguesa e dois espanhóis.
Há também 133 indianos, 47 norte-americanos, 34 australianos, 33 britânicos, 24 canadianos, 19 malaios, sete ucranianos, seis singapurianos, seis sul-africanos, cinco japoneses, cinco neozelandeses, quatro alemães, três franceses, dois irlandeses, dois neerlandeses e dois russos.
Pelo menos 80 pontes foram destruídas (35 pontes rodoviárias e 45 pontes pedonais suspensas).
A enxurrada causou "graves danos" nas instalações do projeto hidroelétrico de Langtang Khola, cuja construção tinha acabado de ser concluída e que previa iniciar testes nos próximos dias, disse o respetivo diretor, Bijay Mohan Bhattarai, ao jornal Kathmandu Post.
O que causou a inundação?
As autoridades continuam a avaliar a origem da enxurrada, visto que num primeiro momento se considerou a possibilidade de transbordo ou rutura de um lago glaciar no Tibete, mas apontou-se também para um sismo que poderá ter estado na origem da emergência.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Nepal, Shishir Khanal, afirmou preliminarmente que um sismo ocorrido às 08:37 locais (03:52 em Lisboa) terá provocado um grande deslizamento de terra, bloqueando o curso do rio e originando depois a inundação.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos registou a essa hora um abalo de magnitude 4,4, com epicentro a cerca de 77 quilómetros a noroeste da localidade nepalesa de Kodari.
O Kathmandu Post noticiou que a impossibilidade de os governos do Nepal e da China contactarem autoridades nas zonas afetadas, devido à destruição de infraestruturas, estava a dificultar o estudo da causa da catástrofe.
Como decorrem as operações de resgate?
O Governo do Nepal ordenou a mobilização de helicópteros do Exército e de empresas privadas para resgatar feridos e pessoas encurraladas, transportá-las para locais seguros e destacar todos os recursos necessários para a zona.
De acordo com o balanço mais recente da Autoridade Nacional para a Redução e Gestão do Risco de Desastres, as autoridades resgataram 80 pessoas por via terrestre e 116 por helicóptero.
O Governo declarou zona de catástrofe durante três meses as áreas afetadas pela enxurrada do rio Bhotekoshi.
Também disponibilizou cuidados médicos gratuitos para os feridos, alojamento e alimentação para quem perdeu as habitações e assistência financeira imediata para as famílias das vítimas mortais, de acordo com a legislação em vigor.
O executivo ordenou também a reabertura o mais rapidamente possível das estradas cortadas, o restabelecimento do abastecimento de água potável, eletricidade e telecomunicações, bem como a mobilização de recursos para a reconstrução das infraestruturas públicas danificadas.
Que ajuda internacional foi disponibilizada?
A União Europeia (UE) ativou hoje o sistema de satélite Copernicus para mapear as zonas afetadas, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o bloco estava "pronto para mobilizar mais assistência".
A Índia enviou de urgência 10 toneladas de material de ajuda humanitária e mantimentos médicos para o Nepal.
O Reino Unido mostrou-se "profundamente preocupado" e os Estados Unidos declararam-se prontos para "prestar assistência", entre outras manifestações solidárias.
Em Portugal, o Governo manifestou solidariedade e a associação nepalesa Nialp anunciou que vai recolher ajuda para enviar para o Nepal "logo que possível".
A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV) libertou mais de um milhão de euros em fundos de emergência para apoiar a resposta da Cruz Vermelha do Nepal.