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Funchal ao alto

A cidade do Funchal celebra 518 anos no próximo dia 21 de agosto.

O tempo das cidades encerra muitas das nossas memórias, mas uma cidade também se quer viva e em mudança. E no curso normal do tempo que passa, o Funchal certamente vai continuar a mudar, como sempre mudou, e, inevitavelmente, também mudará a nossa própria maneira de olhar para a cidade.

O que hoje nos parece excessivo poderá amanhã parecer-nos perfeitamente normal, tal como algumas mudanças que hoje aceitamos sem pensar poderão ser vistas, daqui a várias décadas, como decisões que podiam ter sido tomadas de outra maneira.

É precisamente por sabermos isto que cada transformação exige cuidado e ponderação. Não para travar o tempo, mas para que a pressa de acompanhar o presente não comprometa o futuro.

Antes de prosseguir, quero deixar bem claro que não tenho nenhuma vontade de viver numa cidade parada no tempo. Aliás, desconfio bastante de quem acha que a melhor cidade é sempre a cidade de antigamente. O passado tem essa vantagem, esquecemos facilmente os problemas e ficamos sobretudo com aquilo de que sentimos saudades.

Uma cidade precisa de se renovar, porque as pessoas mudam, as necessidades mudam, a economia muda e aquilo que era adequado há muitos anos pode já não corresponder ao que precisamos hoje.

É neste contexto que a construção em altura ganha importância e será, seguramente, uma das discussões mais acutilantes dos próximos anos.

Confesso que não sou uma entusiasta da ideia de ver a cidade crescer indiscriminadamente para cima. Gosto do Funchal como ele é, com a sua relação muito particular entre o mar e a montanha, com a forma como as casas se espalham pela encosta e com aquelas vistas que, mesmo para quem nasceu aqui e já quase nem repara nelas, continuam a ter qualquer coisa de extraordinário.

Mas também não sou totalmente contra a construção em altura. Seria pouco razoável defender que uma cidade insular, com território limitado e com uma pressão habitacional crescente, não deve sequer discutir outras formas de ocupação do espaço.

Por isso, pode fazer sentido construir em altura. O que não pode acontecer é achar que, só porque podemos subir mais alguns andares, encontrámos finalmente a resposta para a habitação.

E depois existe a paisagem. Sobre isso, confesso, sou menos neutra. Não sou urbanista e não pretendo discutir tecnicamente aquilo que compete aos especialistas, mas vivo na zona da Ajuda e sei bem como há edifícios que alteram a vista, a relação com o mar e a linha do horizonte.

Sei que afirmar que edifícios com muitos andares vão destruir o Funchal é tão simplista como dizer que qualquer construção baixa é automaticamente boa. Há projetos que podem ser bem integrados, há lugares onde faz sentido aumentar a densidade e há zonas onde construir em altura pode até ser uma forma de evitar ocupar ainda mais território. Mas a decisão tem de fazer sentido para o lugar onde é tomada. Não basta caber no terreno. É preciso caber na cidade.

Por outro lado, quando se acrescenta densidade a uma zona, acrescenta-se também pressão sobre tudo aquilo que está à volta. Não podemos pensar apenas no edifício que vamos construir sem pensar na cidade que ele vai obrigar a reorganizar.

E não podemos também esquecer que o Funchal vive hoje uma pressão que resulta de várias forças ao mesmo tempo. O turismo trouxe-nos muito, e seria absurdo negar a importância que tem para a Madeira. Trouxe investimento, emprego e atividade e uma visibilidade que há poucas décadas seria difícil imaginar. Mas uma cidade pode beneficiar muito do turismo e, ao mesmo tempo, começar a sentir dificuldades em manter os seus próprios moradores. É uma contradição desconfortável, mas existe. Podemos ter uma cidade economicamente dinâmica e socialmente pressionada.

Agora, é o momento certo para os atuais políticos fazerem a sua escolha. Não entre turismo e residentes, porque essa é uma falsa questão. Não entre construção e preservação, porque também não tem de ser assim. Têm sim de escolher onde se constrói, onde se densifica, onde se preserva, que habitação querem incentivar e, sobretudo, para quem querem que a cidade continue acessível.

No próximo dia 21, daremos os parabéns ao Funchal, e é mais um momento soberano para pensar o Funchal com seriedade e lucidez. Para que daqui a muitos anos, quando outros olharem para a cidade que deixámos, reconheçam as marcas do tempo, as mudanças inevitáveis e até alguns dos nossos erros, mas possam também perceber que, no meio de todas as pressões e de todas as oportunidades, houve um momento em que se parou para pensar no que realmente valia a pena fazer. E que, quando chegou a hora de escolher entre construir porque era possível e construir porque fazia sentido, venceu a clarividência de saber a diferença.

Talvez seja essa a melhor herança que podemos deixar ao Funchal, não uma cidade imutável, porque isso seria impossível, mas uma cidade onde, apesar de tudo o que o tempo inevitavelmente leva e traz consigo, ainda seja possível olhar para a paisagem e reconhecer o lugar a que chamamos casa.