Poderes Cruzados
O poder nas mãos das pessoas erradas será sempre um dos maiores perigos da humanidade. Sabemos que este perigo é, hoje, muito real. E tudo se complica quando percebemos que usam o próprio sistema democrático para alcançar uma legitimidade que, afinal, acaba por servir, apenas, interesses egoístas ilegítimos. A resignação, a sensação de impotência e o desinteresse pela vida pública e por tudo o que está para além do imediato, abrem, também, espaço para que os apetites populistas perigosos se instalem comodamente e se passeiem principescamente pelas principais instituições. E tudo se degrada ainda mais quando, por arrogância, por fraqueza ou por desespero, perdem a vergonha.
O que se passou, agora, no Mundial de futebol, é apenas uma pequena caricatura disso mesmo: o Presidente dos Estados Unidos da América telefona ao Presidente da FIFA a pedir para alterar decisões de jogo tomadas por aqueles que supostamente serão os melhores árbitros do mundo e estariam ali precisamente pelos méritos que alcançaram. E a decisão de suspensão do atleta dos Estados Unidos da América foi mesmo alterada depois desse telefonema. Donald Trump agradeceu e agora já aponta Gianni Infantino para ocupar o cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas (ONU). E tudo isto aconteceu enquanto milhares de pessoas gritavam e vibravam pela sua equipa nos estádios e enquanto milhões assistiam pelo mundo fora aos mesmos jogos de futebol, com o mesmo entusiasmo, sem pensar em mais nada, apenas focados no fulgor do espetáculo e na euforia do momento. Este quadro não pode deixar de ser devidamente interpretado e registado.
Não terão, felizmente, conseguido, no geral, viciar o jogo e a verdade acabou por vencer a mentira. Nos relvados, para além de todos os apetites e de todas as teias escondidas, o mundo acabou por assistir a um Mundial de futebol que fica definitivamente marcado por aquilo que é simples: o triunfo da atitude sobre a técnica e sobre a tática. Creio que esta será mesmo uma das maiores lições deste mundial que pode revolucionar o desporto. A vontade, o carácter e o querer são capazes de vencer tudo. E Cabo Verde foi disso um dos grandes exemplos, encantando o mundo, não pelas lendas sagradas ou pelo poderio financeiro, não pelo rigor técnico ou tático, mas sim pela luta, pelo sacrifício, pela humildade e pela força de carácter que garantiu um desempenho fantástico. E é isto que queremos. Que o futebol e a verdade vençam sempre, para além de todos os esquemas que o tentam usar para servir outros interesses menores. E que tenhamos sempre a noção de que isto nunca acontecerá só por acaso. Depende muito de cada um de nós. Também temos de parar, de pensar e de nos indignar. Temos de censurar e de reagir perante todas as injustiças e esquemas pouco claros que procuram interferir e subverter a verdade mais simples e pura.
E é deste quadro que partimos para uma reflexão mais profunda. Não existe democracia verdadeira sem um Estado de Direito que respeite, que cumpra e que faça cumprir todos os princípios fundamentais, procurando pôr fim a uma crise de valores que se instala transversalmente na sociedade. É por isso que o princípio da separação de poderes ganha especial relevância em todas as suas dimensões num sistema que mantém muitos corredores perigosos e que deixa ainda muitas portas abertas. O atual sistema de nomeações políticas na esfera judiciária não ajuda nada, principalmente quando as escolhas ultrapassam determinados limites. Como disse Pedro Passo Coelho, “há sinais que não são bons” e que devem ser evitados em nome de uma cultura de responsabilidade, de rigor, de transparência e de salvaguarda das instituições, para além de qualquer dúvida. Cumpridas, as palavras de Passos Coelho teriam talvez evitado espetáculos tristes e degradantes de comunicados e conferências de protagonistas desesperados, esgotados, afundados em contradições, infantilidades e desculpas esfarrapadas, afogados em histórias muito mal contadas. Teriam evitado, sim, o triste espetáculo dos últimos tempos, mas, provavelmente, algo de muito perigoso continuaria escondido. E é sempre bom que a verdade venha à tona. Serei sempre pela verdade, pela responsabilidade, pela transparência, pelo controlo, pela sindicância e pela Justiça.