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Crónicas

Depois dos recordes

Para preservar um tesouro, é preciso conseguir olhá-lo para além das nossas próprias certezas

“Tatsu tori ato wo nigosazu.”
O pássaro que parte não suja o ninho.

É um provérbio japonês que há muito me acompanha. Quando deixamos um lugar, devemos deixá-lo igual ou, se possível, melhor do que o encontrámos.

Lembrei-me dele a propósito de algumas reportagens que tenho feito e dos números históricos que a Madeira tem registado no turismo: mais visitantes, mais dormidas, mais receitas.

São números importantes. Mas, no meio de tantos recordes, dei comigo a pensar: quando todos esses visitantes regressarem a casa, o que ficará da ilha?

Porque uma ilha não é apenas um destino. É a casa de quem cá vive. É uma identidade construída ao longo de séculos: a Laurissilva, as levadas, os socalcos, o vinho, o bordado, o artesanato, as festas, a sabedoria dos mais velhos. E nada disso cabe numa estatística.

É aqui que o turismo regenerativo me interessa. Não apenas reduzir o impacto da nossa passagem, mas procurar que ela deixe alguma coisa melhor do que encontrou. Proteger os ecossistemas, fortalecer as comunidades e fazer com que mais dessa riqueza fique cá.

Vi isto acontecer no Príncipe.

A conservação das tartarugas marinhas juntou comunidades locais, pescadores e visitantes em torno da proteção de uma espécie e das praias onde desova. Quem chega pode viver uma experiência extraordinária, mas percebe também que aquela praia não está ali apenas para seu usufruto.

Vivi isso com as minhas filhas. Foi ali que celebrei os meus 40 anos.

Podemos ir ao Príncipe para ver uma tartaruga chegar à praia, assistir ao nascimento das crias e vê-las correr até ao mar. Ou podemos querer que, daqui a vinte anos, outras tartarugas continuem a chegar à mesma praia.

Também vivi algo semelhante no México, de uma forma diferente. Levei as minhas filhas a conhecer uma comunidade maia. Não fomos apenas visitar. Estivemos com as pessoas, ouvimos as suas histórias, moemos cacau, fizemos pastilhas elásticas e aprendemos com elas outra forma de viver.

Algumas dessas aprendizagens vieram connosco e, anos depois, ainda hoje as praticamos.

E ficou mais do que isso. Ficou uma ligação emocional àquela aldeia e às pessoas que nos receberam. Deixou de ser um ponto no mapa ou uma fotografia de uma viagem. Passou a ser um lugar com rostos, histórias e memórias que ainda hoje fazem parte das nossas vidas.

É essa a diferença entre uma viagem que consumimos e uma viagem que nos transforma.

Quando conhecemos verdadeiramente as pessoas de um lugar, deixamos de olhar para o território como um cenário. Começamos a sentir que também temos responsabilidade sobre o que acontece ali.

E se fizéssemos mais isto na Madeira?

E se parte da experiência de quem nos visita passasse por recuperar um trilho, plantar espécies endémicas, apoiar um projecto ligado ao mar, à tecelagem ou sentar-se com uma bordadeira e ouvir a sua história?

E se uma parte da riqueza gerada nos lugares mais procurados regressasse às comunidades e à conservação daquilo que torna cada lugar único?

Algumas destas mudanças parecem ter começado. A Madeira tem vindo a criar mecanismos para gerir melhor a pressão sobre o território e é hoje um destino certificado em sustentabilidade. É importante reconhecer o caminho feito. Mas também perguntar o que falta fazer.

Andamos muito focados em saber quantos turistas vêm. E será que estamos a fazer a pergunta certa?

Que turismo queremos ter?

Que impacto queremos que deixe?

Quanto dessa riqueza queremos que permaneça na economia local?

Que Madeira queremos encontrar daqui a vinte anos?

Quando olhamos apenas para os números, acabamos por procurar sempre mais números. Mas, quando começamos também a olhar para a pressão sobre os ecossistemas, para a capacidade de carga dos lugares, para a preservação das tradições e da cultura, para a forma como a riqueza é distribuída e para a satisfação de quem cá vive, as decisões começam a ser outras.

O turismo é vital para a Madeira. Cria emprego, gera riqueza e transformou a Região. É por isso que precisamos de cuidar dele.

Chegou o momento de pensarmos menos em como diminuir os danos e mais em como aumentar o bem que o turismo pode deixar.

Como pode um visitante ajudar a preservar uma levada?

Como pode uma experiência turística ajudar uma bordadeira a continuar a bordar?

Como pode o dinheiro de quem nos visita chegar também ao agricultor, ao pescador, ao artesão ou à pequena venda?

Como jornalista, faço muitas perguntas. E tenho mais uma:

Como conseguimos receber quem chega sem perder aquilo que o trouxe até aqui?

Porque, quando uma tradição desaparece, não há investimento que a reconstrua exactamente como era. Quando um artesão fecha a porta, perde-se muito mais do que um negócio. E quando quem vive aqui começa a sentir que certos lugares já não lhe pertencem, alguma coisa já se perdeu, mesmo que as estatísticas continuem a bater recordes.

O desafio é não sermos apenas anfitriões, mas também guardiões do que recebemos. E convidar quem nos visita a cuidar connosco.

Que venha. Que caminhe pela ilha, que prove, que conheça as pessoas, que se deixe surpreender. E que, no fim, também cuide.

Não herdámos esta ilha dos nossos ancestrais. Pedimo-la emprestada aos nossos filhos.

Depois de tantos recordes, este é o sucesso que vale verdadeiramente a pena perseguir.