Pão, máscaras e coragem antes de enfrentar a tragédia em La Guaira
Ainda mal amanheceu e a chuva cai sobre a capital venezuelana. As nuvens carregadas cobrem a cidade, mas não travam quem, há mais de uma semana, transformou a solidariedade numa rotina diária.
O relógio ainda marca as primeiras horas da manhã quando Aleixo Vieira faz a primeira paragem do dia.
Há 9 dias consecutivos que o coordenador dos conselheiros das comunidades portuguesas cumpre o mesmo ritual: entra na padaria, cumprimenta os funcionários e recolhe dezenas de pães acabados de sair do forno.
O destino não são as mesas de pequeno-almoço da capital. São as equipas que trabalham sem descanso entre os escombros de La Guaira.
Enquanto Caracas desperta lentamente, a ajuda já está em andamento.
Ao seu lado segue Ramiro Gonçalves. Não é apenas mais um voluntário. É uma das vítimas desta tragédia. Perdeu praticamente tudo em La Guaira e, mesmo assim, escolheu regressar todos os dias ao cenário da destruição para ajudar quem ficou em situação ainda mais dramática.
Antes da partida surge uma preocupação que, nove dias depois do duplo terramoto, passou a fazer parte da realidade das equipas.
Primeiro entrega o Vapo Spray. “O cheiro que vamos encontrar já é muito intenso”, diz. “Nem sabes o que vais encontrar”, reforça.
Os corpos que continuam sob os escombros encontram-se em avançado estado de decomposição e o odor tornou-se um dos maiores desafios para quem trabalha nas operações de busca e recuperação.
A seguir vem outra pergunta, feita com naturalidade, como quem confirma um equipamento indispensável antes de iniciar mais um turno.
“Tens máscaras? A resposta de imediato é afirmativa.Todos sabem porquê.
A viagem entre Caracas e La Guaira continua a ser possível por estrada. O trânsito é, para já, o principal obstáculo num percurso que, antes da tragédia, era feito diariamente por milhares de pessoas. Hoje, cada quilómetro aproxima os voluntários de uma realidade completamente diferente daquela que deixaram na capital.
Dentro da viatura fala-se pouco de medicamentos.
Há dias que a esperança já não se mede apenas pelo número de sobreviventes encontrados. Mede-se também pela capacidade de continuar a ajudar quem perdeu familiares, casa, trabalho e praticamente toda a sua vida.
Enquanto em Caracas a chuva continua a cair, em La Guaira espera mais um dia de poeira, cheiro intenso, máquinas pesadas e silêncio interrompido apenas pelas equipas de resgate.
Para Aleixo Vieira, Ramiro Gonçalves e tantos outros voluntários, o dia começa sempre da mesma forma.
Com pão nas mãos.