Mais de mil crianças palestinianas deslocadas devido a ataques de colonos na Cisjordânia
A organização não-governamental (ONG) Save the Children denunciou hoje que mais de mil crianças palestinianas foram obrigadas a abandonar as suas casas devido ao aumento dos ataques perpetrados por colonos israelitas na Cisjordânia no primeiro semestre deste ano.
A ONG indicou que este número representa já metade do número de menores deslocados devido a estes incidentes nos três anos anteriores, quando foram registadas cerca de 2.000 crianças deslocadas por ataques de colonos, que incluem incêndios em habitações, veículos e terras agrícolas, bem como assaltos a escolas e ataques armados.
"O aumento dos ataques por parte dos colonos israelitas não é nenhuma surpresa. O que é surpreendente é o silêncio da comunidade internacional enquanto milhares de crianças palestinianas vivem com medo constante das forças israelitas e dos colonos, desprotegidas e sem meios para garantir a sua segurança", afirmou o diretor da Save the Children para o Médio Oriente, Norte de África e Europa Oriental, Ahmad Alhendawi.
"Este ciclo de violência tem de acabar", sublinhou, tendo em conta os dados das Nações Unidas que revelam que os ataques por parte de colonos aumentaram 45% durante o primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior, com mais de 1.020 incidentes desde janeiro, contra os 757 registados no mesmo período de 2025.
Os mesmos dados das Nações Unidas salientam que as forças israelitas participaram diretamente nos ataques, num contexto em que também aumentou o número de feridos devido aos assaltos perpetrados por colonos, bem como a violência física e as ameaças de violência, um dos fatores que impulsiona o deslocamento da população palestiniana na Cisjordânia.
"A comunidade internacional deve agir para garantir que as autoridades israelitas ponham fim à violência exercida pelos colonos, que os responsáveis prestem contas e que as pessoas afetadas recebam uma reparação integral", disse Alhendawi.
Neste sentido, argumentou que "os Estados também deveriam proibir o comércio, a cooperação económica, a ajuda financeira e os serviços que mantenham ou apoiem os colonatos israelitas ilegais no território palestiniano ocupado".
"Isto está em consonância com as obrigações estabelecidas pelo Tribunal Internacional de Justiça em julho de 2024 e é imprescindível para proteger os direitos fundamentais das crianças palestinianas", concluiu.
Israel ocupa a Cisjordânia desde 1967, na sequência da Guerra dos Seis Dias, mantendo também a anexação de Jerusalém Oriental, não reconhecidas pela comunidade internacional.
Lado a lado com cerca de três milhões de palestinianos, mais de 500 mil israelitas vivem atualmente em colonatos na Cisjordânia, considerados ilegais pelas Nações Unidas à luz do direito internacional.
A política de colonização tem sido mantida por sucessivos governos israelitas desde 1967, mas intensificou-se após a formação do atual executivo liderado por Benjamin Netanyahu, no final de 2022, e ganhou novo impulso na sequência do ataque do movimento islamita palestiniano Hamas, em 07 de outubro de 2023, que desencadeou a última guerra na Faixa de Gaza.
Ramallah, onde está a sede da Autoridade Palestiniana, tem registado um aumento de ataques de colonos contra palestinianos e as suas propriedades, incluindo agressões físicas, disparos, incêndios em habitações e destruição de terras agrícolas.
O Governo israelita está a financiar, a um ritmo sem precedentes, novos colonatos, também no norte da Cisjordânia ocupada, bem como a construção de estradas e a instalação de câmaras de vigilância, eletricidade ou água para os colonos, numa iniciativa que o ministro das Finanças, o colono radical Bezalel Smotrich, classificou como uma tentativa de enterrar a possibilidade de "um Estado terrorista palestiniano".
Mais de 60 palestinianos foram mortos em ataques realizados por soldados, polícias ou colonos israelitas na Cisjordânia desde o início do ano, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários.
O número de mortos ultrapassa os 1.116 desde 07 de outubro de 2023, quando Israel intensificou as incursões de rotina na Cisjordânia em retaliação aos ataques lançados pelo Hamas naquele mesmo dia contra o território israelita.