Mais de 70 países, incluindo Portugal, debatem "terrorismo de extrema-esquerda" a convite de Trump
Mais de 70 países, incluindo Portugal, vão estar representados na quinta-feira em Washington num encontro sobre o alegado ressurgimento do terrorismo transnacional de extrema-esquerda, indicou um membro do Departamento de Estado norte-americano citado pela estação norte-americana ABC.
A reunião, na qual Portugal estará representado pela embaixada nos Estados Unidos (EUA), como confirmou à agência Lusa fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros, foi organizada pela Casa Branca (presidência norte-americana) com vista a estabelecer uma "ação coordenada contra esta tendência".
O convite terá sido inicialmente enviado a ministros de mais de 60 países, mas foi, entretanto, alargado a outros Estados, "devido ao enorme interesse" demonstrado pela iniciativa, como adiantou o Departamento de Estado norte-americano numa mensagem publicada nas redes sociais.
Segundo a ABC, que referiu ter tido acesso a documentos internos do Departamento de Estado dos EUA, a administração republicana liderada pelo Presidente Donald Trump quer combater a alegada "ameaça negligenciada do terrorismo transnacional de extrema-esquerda" com ações coordenadas contra as organizações internacionais que "procuram implementar uma visão política extremista através da intimidação e de campanhas coordenadas de terror".
Numa nota partilhada com governos estrangeiros, a Casa Branca defendeu que, "durante demasiado tempo, esta ameaça permaneceu um ponto cego no foco antiterrorista da comunidade internacional", pelo que tem "recursos insuficientes, apesar do perigo que representa".
O documento prossegue afirmando que os especialistas em segurança pública e antiterrorismo revelaram uma "clara tendência" de "terroristas com redes globais e motivações políticas --- particularmente terroristas de extrema-esquerda" que recorrem, cada vez mais, à "violência organizada e letal para alcançar os seus objetivos políticos".
Outro 'media' norte-americano, o jornal The Washington Post, assegurou num artigo publicado na semana passada que a nova estratégia não é consensual na administração Trump, adiantando que "algumas autoridades norte-americanas" reconheceram temer que esta reunião faça parte de um esforço para usar ferramentas antiterroristas a fim de reprimir ativistas norte-americanos.
O jornal adiantou que o diretor de contraterrorismo dos EUA e assistente do Presidente norte-americano no Conselho de Segurança Nacional, Sebastian Gorka, admitiu a possibilidade de usar rótulos de terrorismo estrangeiro para se referir à rede Antifa (abreviatura de antifascista), uma associação de ativistas de extrema-esquerda que se opõem militantemente ao fascismo e às ideologias de direita.
Para Gorka, referiu o The Washington Post, esta seria uma forma de justificar a perseguição a norte-americanos com ligações ao movimento.
O Departamento de Justiça acusa alegados seguidores da Antifa de crimes de terrorismo por um ataque, em 2025, ao ICE (U.S. Immigration and Customs Enforcement), a agência federal norte-americana responsável por fiscalizar as leis de imigração e combater o crime transnacional.
Uma análise realizada no ano passado pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) constatou que, embora a violência de esquerda nos EUA tenha aumentado na última década, "partiu de níveis muito baixos e continua muito abaixo dos níveis históricos de violência perpetrada por atacantes de direita e 'jihadistas'".
"O terrorismo de esquerda é uma prioridade da administração Trump, mas é o terrorismo 'jihadista' que continua a ser uma preocupação, mesmo que tenha diminuído", referiu a análise.
"O terrorismo de direita pode ressurgir em força, especialmente se em 2028 [ano das próximas eleições presidenciais norte-americanas] houver denúncias de 'eleição roubada' ou alegações incendiárias semelhantes", alertou ainda o CSIS.