Sánchez diz que "ferida aberta" em Gibraltar começou hoje a sarar
O primeiro-ministro de Espanha congratulou-se hoje com o fim da vedação de Gibraltar, que desapareceu totalmente esta sexta-feira, uma "ferida aberta" há 117 anos que agora pode transformar-se numa "cicatriz da História".
Pedro Sánchez falava em La Línea de la Concepción, a cidade espanhola que tem fronteira com o território britânico de Gibraltar, poucos minutos depois de ter assistido à remoção, com uma grua, de um dos últimos troços da vedação que desde 1909 separou totalmente os dois lados.
O fim da vedação, conhecida como "la verja", e dos duplos controles de passaportes na passagem fronteiriça, pelas autoridades gibraltarenhas e espanholas, à meia-noite de hoje (23:00 de terça-feira em Lisboa), resultou de um acordo alcançado entre o Reino Unido e a União Europeia, que envolveu Espanha.
O acordo foi negociado por causa do Brexit, a saída dos britânicos da UE, aprovada num referendo de 2016, e a sua entrada em vigor fecha também este processo.
Numa declaração aos jornalistas e diversas autoridades locais, Sánchez considerou que hoje se fez "História da boa" em Gibraltar e em La Línea, porque "cai o último muro da Europa continental".
Espanha e Reino Unido mantêm uma disputa pela soberania de Gibraltar e este é o primeiro acordo entre os dois países relativo ao território em 300 anos.
Sánchez, que como os antecessores no cargo de chefe do Governo de Espanha não pisou hoje território de Gibraltar, tendo assistido à remoção da vedação a poucos passos da linha de fronteira, agradeceu aos sucessivos executivos britânicos o esforço para dialogar e destacou o papel do atual primeiro-ministro, Keir Starmer, para o fecho e conclusão de um entendimento.
"Hoje abrimos uma nova era no Campo de Gibraltar de prosperidade partilhada", disse Sánchez, referindo-se à comarca no sul de Espanha onde se situa o enclave britânico.
"Uma etapa de convivência, de futuro partilhado entre populações que jamais viveram de costas voltadas, essa é a realidade, mas agora, por fim, sem dúvida alguma, vão olhar-se nos olhos e avançar de mão dada", acrescentou.
Sánchez considerou que o acordo, que prevê o livre trânsito de pessoas e bens entre Gibraltar e Espanha, assim como a bertura do aweropoto do enclave britânico à aviação civil, é de "benefício mútuo" e que o maior exemplo e mais direto é o caso das 15 mil pessoas que trabalham no território inglês mas vivem no lado espanhol.
Trata-se de metade da força laboral de Gibraltar, cuja economia também depende de abastecimento por via terrestre desde Espanha.
Essas 15 mil pessoas que cruzam diariamente a fronteira, a maioria a pé, deixaram a partir de hoje de ter de enfrentar filas para ir trabalhar ou de viver com a incerteza de um dia a vedação fechar, como aconteceu em alguns momentos da história.
"Alguém disse que as fronteiras são as cicatrizes da história. Uma cicatriz fala de uma ferida que existiu mas acabou por fechar, enquanto um muro é a decisão consciente de manter uma ferida aberta, como foi 'la verja' durante décadas para milhares de trabalhadores que cruzavam todos os dias, para famílias separadas e gerações que cresceram a pensar que não havia solução", disse Pedro Sánchez.
O primeiro-ministro acrescentou que "obviamente havia solução" e que a única coisa necessária era "vontade política".
"Acreditamos que a política alcança a sua maior dignidade quando deixa de administrar problemas e encontra coragem suficiente para os resolver", defendeu.
Neste momento simbólico e oficial de "demolição da vedação de Gibraltar" estiveram, do lado britânico, o embaixador do Reino Unido em Espanha, Alexander Wykeham Ellis, e o chefe do executivo do enclave, Fabian Picardo.
Com tratado que está desde hoje em vigor, foram eliminados os controlos na passagem fronteiriça terrestre entre Gibraltar e La Línea, que passaram a ser feitos, tanto por Espanha como pelas autoridades gibraltarenhas, no aeroporto e, em alguns casos, também no porto da colónia inglesa.
Segundo o tratado, aplicar-se-ão as regras do espaço Schengen para permitir a entrada em Gibraltar.
O tratado estabelece também novos termos para a cooperação policial entre Espanha e o território, assim como medidas para "convergência fiscal", incluindo disposições específicas para o tabaco, com vista a uma união aduaneira entre os dois lados da fronteira.
O documento prevê ainda um estatuto e outras medidas para os trabalhadores transfronteiriços em Gibraltar.
No referendo do Brexit de 2016, os gibraltarenhos votaram massivamente pelaa permanência do Reino Unido na UE.