Saudades dos Magriços
De malas aviadas, a caminho da Inglaterra, partiam uns endiabrados rapazes, que sabiam e queriam, jogar à bola.
Não estavam sós. Com eles, alguém que sabia treinar; um senhor chamado Otto Glória. Estávamos em mil novecentos e sessenta e seis.
“Os Magriços”, eram eles.
Humildes e discretos, chegaram ao seu destino sem dar nas vistas. Segundo um comentário, de um jornalista da época, -chegamos lá e, no princípio ninguém nos ligava, dizia ele.
Só que, aquela rapaziada, estava ali para mostrar o que muito bem sabia fazer, jogar futebol. Estavam ali para disputar a fase final do campeonato do mundo em futebol.
Não tinham o melhor jogador do mundo, mas tinham um Vicente, que neutralizou o melhor do mundo, tinham um Eusébio, que suava a camisola e marcava golos, assim como os seus colegas, que não viravam a cara à luta. Entravam onze jogadores em campo e todos jogavam, (por vezes, parecia doze). Não jogavam só dez, como se viu recentemente.
Certamente, que não tinham as mordomias dos meninos de hoje. Num mais modesto hotel estiveram hospedados, supõe-se. Não deveriam ter prémios tão chorudos. Talvez não seriam tão mimados, como os meninos de agora o são.
A minha avó já dizia;- “muitos mimos, estragam os meninos”.
Quando a televisão ainda era um sonho na ilha da Madeira, eu tive o privilégio de ver alguns jogos desse mundial disputado na Inglaterra. Isto apenas, quando as condições atmosféricas o permitiam.
Memorável, aquele jogo dos quartos-de-final, com a Coreia do Norte em que, Portugal estando a perder por três a zero, soube dar a volta ao resultado, acabando a vencer por cinco a três, com quatro golos de Eusébio e um de José Augusto. Jogava-se com garra.
A seleção portuguesa disse assim, para que estava ali, demonstrando o seu valor e, com as meias-finais à vista.
Foi o render-se duma comunicação social, à realidade dos factos, agora sim, em busca dos nossos talentosos atletas, no enriquecimento das suas reportagens. A seleção portuguesa deixara de ser uma ilustre desconhecida.
Portugal não foi campeão do mundo, porque no jogo das meias finas com a Inglaterra, forças ocultas defenderam outros interesses, que ultrapassaram a força, o querer e o talento dos jogadores portugueses.
Deixaram-nos saudades, os Magriços.
Deixaram-nos raiva, os martinezes.
Outros tempos, outras vontades.
E agora?
Quem vai salvar a honra do convento?
Vamos ganhar o Europeu?
Talvez um milagre, nos leve ao topo.
De olhos postos no céu, esperemos por tal…
Que Jesus nos valha!
José Miguel Alves