Saudade de AJJ
Um dia, um velho amigo da família, desses que antes do 25 de Abril ainda tiveram o incómodo de arriscar alguma coisa pela liberdade, quando a liberdade não era ornamento de lapela, cartaz de aniversário ou frase de circunstância para discursos pagos pelo contribuinte, disse-me uma coisa que nunca mais me largou. Disse-me, com uma serenidade quase insultuosa, que tinha saudades do tempo da ditadura. Fiquei a olhar para ele, naturalmente, como quem ouve um sobrevivente de um incêndio declarar saudades do fumo. Perguntei-lhe porquê. Por que diabo um homem que lutara contra a ditadura teria saudades do tempo em que a liberdade era vigiada, a palavra era suspeita, a opinião era delito e a dignidade precisava de licença administrativa? E ele respondeu-me aquilo que, na altura, me pareceu uma provocação e hoje me parece uma daquelas verdades desagradáveis que sobrevivem por terem o mau gosto de ser verdadeiras: “Naquele tempo”, dizia ele, “eu sabia quem eram eles e sabia quem éramos nós. Agora já não sei.”
A frase ficou. Não por nostalgia da ditadura, que seria uma cretinice moral de primeira água, mas pela precisão cruel do diagnóstico. O problema das democracias apodrecidas não é acabarem com a liberdade de repente, com botas na escada, censores à secretária e polícias à porta. Isso seria demasiado grosseiro, demasiado visível, demasiado primário, e a canalha contemporânea, embora abundante, raramente é tão simplória. O problema é mais fino, portanto, mais perigoso. É quando a liberdade permanece nas cerimónias e desaparece nos procedimentos. É quando a democracia conserva urnas, hinos, cravos, fotografias oficiais, discursos com gravidade de aluguer e comemorações bastante comovidas, mas começa a funcionar por dentro como uma pequena máquina de dependência, vigilância, favor, medo, emprego condicionado, silêncio comprado e obediência administrada. Uma ditadura sem farda, em suma. Mais asseada, mais urbana, mais institucional, com assessores de comunicação, gabinetes jurídicos e declarações pungentes sobre transparência. O progresso humano é enternecedor. Até conseguiu tornar a servidão compatível com o design da coisa.
Também eu, às vezes, tenho saudades de AJJ. Não do seu estilo, que era, muitas vezes, uma mistura de vendaval, arraial e murro na mesa. Não dos seus excessos. Não daquela tendência de ocupar a Madeira como se a Região fosse uma dependência da sua casa de jantar. Tenho saudades, sobretudo, da nitidez. AJJ era o que era. Via-se. Ouvia-se. Não vinha mascarado de modernidade higiénica, de tecnocracia sensata, de civismo perfumado, de decência europeia em versão brochura. Era bruto, frontal, desmedido, frequentemente insuportável, mas pelo menos não obrigava ninguém a perder tempo a decifrá-lo. Podia-se discordar dele olhando-o de frente. Sabia-se onde estava o poder, como se movia, quem mandava, quem obedecia, quem adulava, quem recebia, quem calava e quem resistia. Havia, naquela desmesura, uma espécie de honestidade brutal. Brutal, sem dúvida. Mas honesta na sua própria falta de vergonha, o que, visto o panorama actual, já quase parece uma virtude clássica.
Estes que vieram depois não são melhores. São piores. Muito piores. Porque herdaram todos os vícios e nenhuma grandeza. Ficaram com a máquina, mas não com a dimensão. Ficaram com o gosto pelo mando, mas sem a coragem elementar de admitir que mandam. Ficaram com a ocupação do espaço público, mas embrulharam-na numa linguagem sonsa de gestão, modernização, estabilidade, responsabilidade e outras palavras de funeral que servem para perfumar cadáveres políticos e convencer os distraídos de que a decomposição é apenas uma etapa administrativa. Continuam a distribuir dependências, a premiar fidelidades, a castigar incómodos, a confundir partido, governo, Região e quintal, mas fazem-no agora de rosto lavado, ar contrito, gráfico impecável da DREM, comunicado manso e aquela superioridade moral dos pequenos poderes que julgam ter descoberto a civilização porque aprenderam a pronunciar “governança” sem se rirem.
AJJ tinha defeitos monumentais. Estes têm defeitos rasteiros. E há uma diferença considerável entre o excesso e a mediocridade organizada. O excesso, ao menos, apresenta-se. Faz barulho, incomoda, obriga-nos a responder. A mediocridade não. A mediocridade infiltra-se. Entra por debaixo da porta, pelos corredores, pelas empresas públicas, pelos gabinetes, pelas nomeações, pelas amizades úteis, pelas dependências discretas, pelas pequenas cobardias quotidianas, até já ninguém saber onde acaba o cidadão e começa o cliente, onde acaba a convicção e começa o cálculo, onde acaba a liberdade e começa o favor. É isto que cansa. É isto que apodrece. Não é apenas a má política, porque má política sempre houve, desde que os homens descobriram que, em grupo, conseguiam organizar melhor a própria indecência. O problema é esta política minúscula, fechada sobre si mesma, satisfeita, sem grandeza, sem risco, sem rasgo e sem vergonha sequer suficiente para ser interessante.
O mais grave, talvez, nem seja o que fazem. É o que ensinam. Um regime pequeno, quando dura demasiado, deixa de ser apenas poder e passa a ser escola. Ensina a baixar a voz, a medir as palavras, a perguntar quem está na sala antes de dizer o que se pensa. Ensina que a competência é útil, mas secundária; que o mérito fica bem nos discursos, mas raramente entra pela porta certa; que a independência é bonita nos livros, mas incómoda nos concursos, nas nomeações e nos convites. Assim se fabrica uma sociedade cautelosa, não por carácter, mas por treino. Gente que não desiste da liberdade apenas a deixa em casa para não arranjar problemas.
E depois há a vergonha, ou melhor, a sua alegre extinção. Já ninguém cora. Nomeia-se um amigo com ar de serviço público. Arranja-se lugar a um obediente com gravidade patriótica. Confunde-se o interesse público com a conveniência privada e ainda se exige aplauso, porque a ingratidão popular é uma coisa muito desagradável. Os mesmos que pregavam ética, decência e renovação instalam-se depois nas práticas que diziam combater, apenas com vocabulário mais limpo e melhor fotografia. E quando alguém pergunta, vem logo a procissão dos ponderados para garantir que tudo foi feito dentro da lei. Pois. A História está cheia de porcarias feitas dentro da lei.
Por isso, hoje compreendo melhor aquele velho amigo da família. Ele não tinha saudades da ditadura. Tinha saudades da linha. Da fronteira moral. Da clareza dolorosa do tempo em que se sabia, com perigo e sem romantismo nenhum, quem estava de um lado e quem estava do outro. Hoje está tudo misturado num caldo morno e oportuníssimo. Há democratas de crachá com práticas de cacique. Há liberais de boca cheia com reflexos de contínuo do regime. Há autonomistas que confundem a Autonomia com a conservação do lugar, da cadeira, da carreira e do subsídio emocional que recebem do poder. Há reformistas que só querem reformar o que não lhes toca. Há moralistas que descobrem a ética quando estão fora e a perdem, por um misterioso acidente meteorológico, ao mal atravessarem a porta do poder. Extraordinária fatalidade, esta. Sempre que a ética encontra uma nomeação, fica indisposta.
E é isto que me incomoda. Não é a memória de AJJ, nem a comparação fácil, nem a saudade absurda de tempos que não devem regressar. É perceber que muita gente que se apresentou como alternativa era apenas uma continuidade, com o cabelo penteado de outra maneira. É perceber que os que vinham corrigir a casa se instalaram depressa no sofá, acharam a mobília confortável e descobriram, com grande sofrimento patriótico, que, afinal, não era preciso mudar tanto assim. É perceber que a Madeira continua, demasiadas vezes, presa à mesma lógica, à mesma corte, à mesma reverência, ao mesmo medo pequenino, à mesma dependência administrada, só que agora tudo chega embrulhado num verniz institucional que torna a coisa ainda mais insuportável. Porque antes sabíamos quem eram eles. Hoje eles dizem que somos nós. E talvez seja essa a forma mais eficaz de uma democracia se trair: quando já não se distingue o adversário do administrador, o cacique do reformador, o regime da alternativa.
Também eu tenho saudades dessa clareza. Não por querer voltar atrás, que isso seria trocar a lucidez pela arqueologia da estupidez, mas por estar farto desta gente que se apresenta como futuro e cheira tão intensamente a passado, a mofo. AJJ era AJJ. Estes são a continuação sem génio, a herança sem grandeza, o vício sem carisma, o mando sem coragem, a máquina sem sequer a grandeza teatral da máquina. E quando uma terra troca a força bruta pela esperteza mansa, não fica necessariamente mais livre. Fica apenas mais confusa. E, pior do que isso, fica com a sensação vagamente humilhante de que alguém lhe põe a mão no ombro, sorri com bondade administrativa, fala em estabilidade e, entretanto, lhe esvazia os bolsos.
“Naquele tempo”, dizia aquele velho amigo da família, “eu sabia quem eram eles e sabia quem éramos nós. Agora já não sei.”
P.S.: Sei que muitos vão “entender” de viés o que escrevo acima, mas é para o lado para onde durmo melhor.