A tragédia da Venezuela da Madeira
Quando a terra treme na Venezuela, há qualquer coisa que também abana dentro de nós
Há lugares que nunca deixam de ser nossos, mesmo quando ficam do outro lado do oceano. A Venezuela é um deles. Para quem olha para um mapa, trata-se de um país da América do Sul. Para muitos madeirenses, porém, sempre foi muito mais do que isso. Foi o destino de pais e avós que partiram de malas cheias de esperança. Foi o país onde nasceram filhos, abriram-se padarias, supermercados, oficinas e empresas. Foi onde se trabalhou de sol a sol para construir um futuro que a ilha, naquele tempo, não conseguia oferecer. Por isso, quando a terra treme na Venezuela, há qualquer coisa que também abana dentro de nós. As imagens dos últimos dias são difíceis de esquecer. Edifícios desfeitos, ruas cobertas de pó, famílias à procura de quem ainda possa estar vivo debaixo dos escombros.
Entre as vítimas, portugueses e lusodescendentes. Entre eles, pessoas que carregavam apelidos tão familiares à Madeira como as levadas ou o vinho que nos identifica no mundo. De repente, a notícia deixou de ser internacional. Tornou-se pessoal. Durante anos habituámo-nos a ouvir falar da Venezuela pelas piores razões. A instabilidade política, a crise económica, a emigração forçada de quem já lá tinha recomeçado a vida. Parecia que aquele país já tinha suportado todas as provações possíveis. Mas a natureza, indiferente às fragilidades humanas, voltou a lembrar-nos que há dores que não escolhem fronteiras nem nacionalidades. E, no entanto, há algo que continua a distinguir a Madeira. A capacidade de nunca esquecer os seus.
Bastou surgirem as primeiras notícias para começarem os telefonemas. As mensagens. As tentativas de confirmar se familiares e amigos estavam bem. Em muitas casas da Madeira, ninguém conseguiu dormir enquanto não ouviu aquela frase simples que vale mais do que qualquer riqueza: “Está tudo bem.” É nestes momentos que percebemos que a palavra “distância” nem sempre faz sentido. Há pessoas que vivem a sete mil quilómetros e continuam a fazer parte da nossa rotina emocional. Continuam presentes nas conversas de domingo, nas fotografias antigas guardadas na sala, nas histórias que passam de geração em geração. A emigração nunca foi apenas um fenómeno económico. Foi uma forma de a Madeira crescer para lá das suas fronteiras.
Cada madeirense que partiu levou um pouco da ilha consigo. Levou o sotaque, os costumes, as festas, a forma de receber quem chega e aquela estranha capacidade de transformar qualquer lugar em casa. E, sem darmos conta, a Venezuela também entrou na nossa identidade. Ficou ligada às famílias, às memórias e às saudades. Talvez seja por isso que esta tragédia nos toca de maneira diferente. Não olhamos para aquelas imagens como quem observa um país distante. Olhamo-las como quem vê uma parte da família a sofrer. Num mundo tantas vezes dominado pela indiferença, há algo de bonito nesta ligação invisível entre dois territórios separados pelo Atlântico. Uma ponte construída não em betão ou aço, mas em afetos. Uma ponte que resistiu às mudanças políticas, às crises económicas, ao tempo e até ao regresso de muitos emigrantes.
Agora terá de resistir também à dor. As tragédias têm uma forma curiosa de nos recordar aquilo que verdadeiramente importa. Fazem-nos perceber que as fronteiras são apenas linhas desenhadas nos mapas e que as comunidades não se medem pela geografia, mas pelos laços que unem as pessoas. A Venezuela continuará sempre a fazer parte da história da Madeira. Não apenas porque milhares de madeirenses ali construíram uma vida, mas porque também ali deixaram um pedaço da nossa alma. E talvez seja essa a maior lição destes dias. Há ligações que nem a distância consegue quebrar. Nem o tempo consegue apagar. Nem a própria terra, quando treme, consegue destruir. Porque há raízes que aprendem a atravessar oceanos.
E essas ficam para sempre.
Um abraço a todos os madeirenses que têm familiares na Venezuela sobretudo aos que perderam alguém especial.