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Turismo Madeira

Problemas no aeroporto podem afastar turistas da Madeira em 2027

António Trindade alerta que os custos provocados pelos desvios e cancelamentos estão a pesar nas decisões dos operadores para o próximo ano e fala em cenário "muito preocupante"

António Trindade e Miguel de Sousa foram os convidados do Debate da Semana na TSF-Madeira.
António Trindade e Miguel de Sousa foram os convidados do Debate da Semana na TSF-Madeira.

A inoperacionalidade do Aeroporto da Madeira ameaça deixar de ser apenas um problema de passageiros retidos e voos cancelados para se transformar num risco sério para a economia regional. Miguel de Sousa acompanha a gravidade do aviso, mas aponta responsabilidades: considera que a Madeira perdeu o controlo do aeroporto com a concessão à ANA e acusa as entidades públicas e o próprio sector turístico de não conseguirem mobilizar uma resposta ao problema.

A sucessão de constrangimentos provocados pelo vento no Aeroporto da Madeira está a ameaçar seriamente as operações aéreas e turísticas para 2027.

O alerta foi deixado por António Trindade, chairman do grupo PortoBay, durante o 'Debate da Semana' da TSF-Madeira, onde avisou que os operadores e transportadores estão mesmo a ponderar a suspensão de operações com a Região já a partir do próximo ano.

“É muito preocupante o que está a ser discutido em relação ao próximo ano, no que diz respeito às operações aéreas e turísticas para a Madeira”, sublinhou, dando conta de que estão a ser consideradas “situações de suspensão de operações” para a Região, em consequência dos encargos que recaem sobre os operadores turísticos e as companhias aéreas.

Na prática, esse recuo deve-se, essencialmente, aos custos que se acumulam com desvios para outros destinos, cancelamentos dos próprios voos e consequente alojamento de passageiros - dos que ficam na ilha e dos que acabam por seguir para outros aeroportos.

Declarações de António Trindade
Por quem é que esses custos [da inoperacionalidade do Aeroporto] são suportados? Pelos operadores e pelos transportadores. António Trindade

Para exemplificar, o gestor hoteleiro descreveu o percurso de um avião que se vê impedido de aterrar na Madeira para ilustrar que o problema não acaba quando diverge para outro aeroporto. “É olhar para um avião que vem cá, anda uma hora à espera, vai para as Canárias, põe os clientes um dia nas Canárias, volta para cá e, eventualmente, não pode aterrar e regressa”, explicou.

Cada tentativa falhada representa - como será fácil de fazer as contas - mais combustível, taxas aeroportuárias, alojamento e alimentação para os passageiros, além das consequências provocadas nas ligações que a aeronave deveria realizar nas horas seguintes. “Este facto está a determinar algo que leva os operadores a tomar decisões. E aqui não estou a falar só do turismo. Estou a falar de situações que todos nós temos sentido”, advertiu.

Qualquer transportador, actualmente, não recebe rigorosamente nada de ninguém, mas tem de pagar as taxas do aeroporto alternativo. E não é só isso. Numa altura em que se fala tanto dos custos dos combustíveis e dos problemas de operacionalidade das próprias companhias, temos também de perceber aquilo que isto representa para as operações seguintes durante o dia. Os custos são efectivamente altos. António Trindade

O ‘chairman’ do PortoBay recusou, contudo, que o problema seja tratado apenas como uma preocupação dos empresários do turismo. Apresentou-o também como uma dificuldade sentida pelos residentes, que já programam as suas deslocações com receio de não conseguirem sair ou regressar à Madeira nas datas previstas.

“Além da minha condição de empresário, sou fundamentalmente madeirense e sinto, como qualquer um de nós, aquilo que é o trauma do transporte aéreo. Nós temos receio de viajar, e é preciso que se diga isso”, declarou.

Três dias custaram 100 mil euros ao PortoBay

E estes efeitos não recaem apenas sobre as companhias aéreas. António Trindade apresentou o exemplo do grupo que representa para dar nota do impacto directo desta inoperacionalidade na hotelaria. “No mês passado, o grupo que eu represento, em três dias de inoperacionalidade, deixou de facturar 100 mil euros”, revelou.

O empresário chamou a atenção para o peso relativamente reduzido do PortoBay no conjunto da oferta hoteleira da Região, deixando implícita a dimensão que as perdas poderão alcançar quando forem consideradas todas as unidades de alojamento.

Eu represento 4% da oferta hoteleira, ou menos. Um grupo, em três dias, deixou de facturar 100 mil euros. Ora, se eu passar isto para a Região, está-se a ver quanto é que isto representa em termos de facturação. António Trindade

António Trindade entende, por isso, que a Região precisa de conhecer a verdadeira dimensão económica dos condicionamentos no aeroporto. “Mais do que um estudo sobre o ferry, importa fazer um estudo sobre o impacto que essa inoperacionalidade provoca no sector turístico e nos sectores similares”, defendeu.

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O empresário considerou ainda que a Madeira já dispõe de informação suficiente para reconhecer a gravidade do problema. O passo seguinte deve passar pela reunião das entidades públicas e privadas com responsabilidade nas acessibilidades. “Nós temos inoperacionalidade no aeroporto quase todos os meses do ano. É fundamental que a Madeira se prepare. Não é para fazer mais estudos”.

Por isso, defendeu que operadores turísticos, companhias aéreas, transportadores marítimos, agentes portuários, hoteleiros, agências de viagens e entidades públicas devem ser chamados a construir uma resposta comum.

O que temos de fazer agora é criar condições para juntar todos os ‘stakeholders’: os operadores, os transportadores, os operadores marítimos, os agentes dos portos, os hoteleiros e os agentes de viagens. Temos de saber se a Madeira pode ou não apresentar uma solução alternativa àquilo que acontece. António Trindade

Miguel de Sousa culpa concessão do aeroporto

Miguel de Sousa acompanhou a preocupação manifestada por António Trindade, mas levou a discussão para o plano político e para o modelo de gestão do Aeroporto. É que na leitura do ex-governante, a Madeira perdeu capacidade de intervenção quando o aeroporto passou para a esfera da concessão da ANA. “Ninguém está a tratar do assunto. Ninguém se importa com o assunto“, acusou.

Considera, pois, que a concessão retirou à Região instrumentos para exigir investimentos e influenciar directamente as decisões relacionadas com a operacionalidade. “Agora está nas mãos da Vinci”, observou.

Declarações de Miguel de Sousa
O aeroporto era nosso. Levámos anos e anos a trabalhar para regionalizar aquela estrutura e perdemos o controlo do aeroporto. (...) Os franceses não querem despesa. Por mais investimentos que se façam, dentro do período da concessão, eles entendem que já não vão recuperar esse investimento. Miguel de Sousa

O antigo vice-presidente do Governo Regional voltou também as críticas para o próprio sector turístico. Reconhecendo que António Trindade e os restantes empresários sentem directamente os prejuízos provocados pelos cancelamentos, Miguel de Sousa questionou por que razão uma actividade com tanto peso na economia regional não consegue apresentar uma posição comum.

Declarações de Miguel de Sousa

“O ‘lobby’ do turismo é poderoso. Não é só o António, são todas as forças do turismo. O que me surpreende é que não consigam mobilizar uma vontade única, uma liderança, para resolver o problema da inoperacionalidade do aeroporto”, atirou.

Mais adiante, Miguel de Sousa avisou que não está a ser desenvolvida uma resposta para nenhuma das acessibilidades: nem para o aeroporto, nem para o Porto Santo, nem para o transporte marítimo de passageiros e carga.  “O estudo está numa gaveta, a questão do Porto Santo fica por tratar e as outras soluções para mitigar a inoperacionalidade também. Ninguém está a tratar de nada”, criticou.

“Não vai haver ferry porque quem manda não quer”

Foi neste contexto que o debate avançou para o estudo sobre uma ligação marítima entre a Madeira e Lisboa, concluído há mais de um mês, mas ainda não divulgado. Miguel de Sousa mostrou-se taxativo quanto ao futuro da operação. “Não vai haver ferry, porque quem manda não quer ferry”, afirmou.

Para o também empresário, a sucessão de estudos e discussões sobre a viabilidade económica serve para adiar uma decisão que, no seu entendimento, já está tomada. “Façam estudos para aqui e para acolá. Ou não há estudo, ou não o querem mostrar”, comentou, questionando as razões que explicam o segredo.

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Mas acrescentou ainda outra grande dúvida: onde poderia um ferry acostar e desenvolver regularmente a sua actividade na Madeira? “Queremos um ferry, mas onde é que o metemos? O estudo vai dizer que o ferry fica onde? Pendurado em quê? Não tem espaço, não tem lugar”, acrescentou.

E há uma razão. Porque “tudo o que inventam metem no Porto do Funchal”. Miguel de Sousa responsabilizou as opções tomadas ao longo dos últimos anos no Porto do Funchal pela redução do espaço disponível para actividades directamente relacionadas com o transporte marítimo.

Encheram o Porto do Funchal de coisas que não têm nada a ver com a acessibilidade marítima. Tem hotéis, tem estacionamentos, tem cafés, tem museu e agora querem fazer uma sala de concertos. Tudo o que inventam metem no Porto do Funchal. Isto é brincar com coisas sérias. Com tudo o que querem fazer e com tudo o que já está feito, não vai haver ferry. Miguel de Sousa

Carga teria de sustentar a ligação

Apesar do pessimismo em relação à concretização desta ligação ferry, Miguel de Sousa explicou que uma operação marítima regular nunca poderia viver exclusivamente do transporte de passageiros. Teria de combinar pessoas, viaturas e mercadorias. E esse foi, na prática, o pecado mortal na última vez que a ligação se efectivou.

“As Canárias viabilizam o ferry com a carga. É a carga que tem de pagar o ferry. O meu avô tinha uma empresa de navegação madeirense. Tinha um barco de 600 toneladas e 12 camarotes. Mas os barcos não viviam dos 12 camarotes. Viviam das 600 toneladas de carga que levavam em cada viagem“, alertou.

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O Porto do Caniçal registou em 2025 um aumento de cerca de 5% no transporte de mercadorias, reforçando o seu papel como principal porta de entrada dos bens essenciais consumidos na Região Autónoma da Madeira e das exportações regionais. Os dados foram avançados pelo secretário regional de Economia, José Manuel Rodrigues, na conferência de imprensa realizada esta quinta-feira, dia 8, promovida pela APRAM.

É esse o princípio que, segundo Miguel de Sousa, continua a assegurar as ligações marítimas nas Canárias. Os navios transportam carga rodada e viaturas, reservando apenas uma parte da capacidade para os passageiros. “Não se trata de ter camarotes para mil passageiros. Trata-se de criar formas de transportar carga e, no meio dessa operação, transportar também pessoas.”

António Trindade acabou por concordar com Miguel de Sousa quanto à importância da carga, mas rejeitou que a falta de espaço no Porto do Funchal encerre a discussão. “As acessibilidades marítimas da Madeira não se esgotam no Porto do Funchal”, contrapôs.

O empresário considera que o Porto do Caniçal reúne actualmente melhores condições para receber uma operação de ferry, embora reconheça que também enfrenta limitações de espaço. “O Porto do Caniçal é aquele que tem mais condições para receber um ferry, contribuir para a resposta à inoperacionalidade do aeroporto e assegurar o transporte de mercadorias”, defendeu.

A infra-estrutura concentra já a recepção de grande parte da carga destinada à Região e dispõe de um cais ‘ro-ro’, adequado a navios que transportam viaturas e mercadorias sobre rodas.

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António Trindade entende, por isso, que a eventual ampliação ou reorganização do Porto do Caniçal deve ser discutida não apenas em função da actividade comercial e da Zona Franca, mas também enquanto peça de uma estratégia de contingência para o transporte aéreo.

Não há estudos que vão determinar que os ventos mudem daqui a três ou quatro anos. Nós vivemos neste ambiente. A pergunta que se faz é: o que fazer? E, actualmente, não se encontra solução. (...) Sem o Porto do Caniçal, é difícil resolver situações de ruptura ou de dificuldade de operação do Aeroporto da Madeira. António Trindade