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Análise

O preço do espectáculo

Mercantilização do jogo fragiliza credibilidade a um mundial em que Portugal desiludiu

Um Campeonato do Mundo deveria servir para consagrar a melhor equipa do planeta. Simples. Noventa minutos, acrescidos das compensações devidas, feitos de onze contra onze, de talento, estratégia, emoção e verdade desportiva. E tudo o resto, que é muito, deveria ser acessório.

Mas este Mundial deixou no ar uma sensação desconfortável, pois não raras vezes o futebol foi apenas um reles detalhe numa versão competitiva alargada a 48 selecções, também ela discutível.

As interrupções obrigatórias para hidratação, compreensíveis quando justificadas por temperaturas extremas, transformaram-se num ritual previsível, quase coreografado, aproveitado para multiplicar exposição comercial, reorganizar transmissões televisivas e criar mais um espaço de activação de patrocinadores. O jogo pára. A publicidade continua. E quase ninguém bebe água. A fronteira entre a necessidade fisiológica, a recomendação médica e a oportunidade comercial tornou-se demasiado ténue.

Depois vieram as decisões disciplinares difíceis de explicar. Quando um castigo desaparece sem que a fundamentação convença adeptos, jogadores e observadores, instala-se a suspeita. E no futebol, como na justiça, não basta ser imparcial, pois é preciso parecê-lo. Um Mundial vive da confiança de milhões de pessoas e essa relação intrínseca não resiste a excepções pouco transparentes.

Também fica a impressão de que há selecções que entram em campo com um peso institucional diferente de outras. Não se trata apenas de arbitragens. É uma sensação construída por pequenas decisões, diferentes critérios e uma comunicação que parece escolher cuidadosamente quem deve continuar em prova. Talvez seja apenas percepção, embora quando esta se generaliza passe a ser um problema da própria FIFA.

Nada desta descaracterização serve para desculpar Portugal.

Uma geração extraordinária de talento individual voltou a sair mais cedo do que prometia. Há jogadores para qualquer candidato ao título, mas continuou a faltar aquilo que distingue as grandes equipas, uma identidade colectiva suficientemente sólida para sobreviver aos momentos difíceis. O talento ganha jogos, mas são as equipas que ganham os campeonatos.

É inevitável concluir que o ciclo do seleccionador chegou ao fim sem conseguir transformar uma constelação de estrelas numa verdadeira equipa. Não por falta de qualidade dos jogadores, mas de lideranças e acima de tudo porque a soma das individualidades nunca produziu um conjunto superior às suas partes.

O Mundial não pode transformar-se num campeonato onde o marketing organiza o jogo, a política escolhe os protagonistas e o futebol se limita a preencher o tempo entre as pausas para a publicidade. Mas mais preocupante é o risco de contágio deste ‘big show’ futebolístico. Não nasceu neste Campeonato do Mundo com estilo americano. Vem crescendo há anos e tende a normalizar um futebol onde o jogo é tratado como conteúdo e o adepto como consumidor. É uma lógica que já se observa na Liga dos Campeões, no Mundial de Clubes, na expansão sucessiva das competições e em calendários cada vez mais saturados.

A autenticidade que fez com que o futebol fosse o desporto mais popular do mundo é de outro teor. É rei porque sempre pareceu justo, imprevisível e genuíno. Ora, se perder alguma das três qualidades, continuará a ser um grande negócio. Mas deixará de ser o jogo que apaixonou gerações.

Para que a imprevisibilidade impere todos têm de acreditar que o jogo pertence aos verdadeiros donos da bola, em campo, e não aos gabinetes, aos patrocinadores ou às estratégias de comunicação.

Se um Mundial começar a ser recordado mais pelas pausas comerciais, pelas decisões administrativas e pelas suspeitas de tratamento desigual do que pelos golos, pelas defesas e pelas grandes exibições, então o essencial já se perdeu de forma comprometedora. E quando o futebol deixa de ser o protagonista do seu próprio jogo, todos perdem. Inclusive aqueles que, por agora, julgam estar a ganhar.