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Voluntários sem mãos a medir pedem ao Governo que olhe para Catia La Mar

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Foto EPA/MIGUEL GUTIERREZ

Cinco dias depois dos dois abalos que destruíram Catia La Mar, os moradores vivem entre escombros e acusam o Governo de Delcy Rodríguez de pintar um cenário "de apoio", quando a "única solidariedade está naqueles que são de cá".

Já passaram cinco dias desde os dois terramotos que abriram uma ferida da qual a Venezuela tardará em sarar. E 120 horas depois de trabalhos contínuos de busca e resgate, a probabilidade de encontrar sobreviventes diminui e o desespero da população aumenta.

O cheiro a corpos em decomposição é forte perto de habitações devolutas, onde as equipas de socorristas e voluntários ainda não chegaram.

"Precisamos de máscaras, dessas com filtro, assim dificilmente conseguimos continuar", pede Stefani, uma voluntária, filha desta cidade à beira mar germinada, com uma lista de encargos para o Governo.

"Dizem nas notícias que nos estão a apoiar, mas onde estão os capacetes? Temos pessoas sem qualquer formação a fazer o que os militares e os bombeiros não fazem. E estão a fazê-lo com as próprias mãos, sem luvas, sem qualquer tipo de proteção. Não temos máscaras, quantos de nós vamos ficar com problemas de respiração depois disto? Mas não podemos parar", afirma a moradora à Lusa, visivelmente consternada.

Ao seu lado, está Ruby, de cabelo amarrado, um boné preto e uma t-shirt da mesma cor, calças de fato de treino, cobertas de terra.

As lágrimas que lhe escorrem pelo rosto limpam um pouco da película de pó que lhe cobre o rosto.

"Não está aqui ninguém. O exército está ali ao fundo a controlar o trânsito e as entregas de comida, mas porque é que não estão aqui a ajudar a escavar? Se não vão ajudar, pelo menos que nos possam dar os equipamentos para que nós consigamos resgatar os nossos", critica a moradora.

À Lusa, as duas mulheres relatam que a avenida junto à praia é a sua nova casa.

"Aqui dividimos uma tenda, assim estamos mais próximos de poder ajudar e também para onde iríamos sem casa?", interroga-se Stefani.

As operações para tentar chegar ao quinto piso de um edifício, agora destruído e ao nível do chão, para tentar chegar a uma pessoa, ali presa desde os sismos de 24 de junho segundo informações de moradores, prosseguem com esperança.

Pode ser que não haja ninguém, pode até ser que já não esteja viva, mas os trabalhos vão continuar "até ter a certeza", garante Ruby.

O duplo sismo que atingiu a Venezuela na passada quarta-feira provocou 1.943 mortos e 10.571 feridos, segundo o último balanço oficial hoje divulgado pelas autoridades venezuelanas.