A injecção que apagou tumores vai ser testada em Portugal
Cinco hospitais já recrutam doentes para receberem medicamento o amivantamab
Eliminou completamente o cancro em 15 de 102 doentes num ensaio internacional. Agora, Portugal entra na fase seguinte e mais ambiciosa dos testes.
É o tipo de notícia que a comunidade científica raramente anuncia com entusiasmo desmedido. Mas quando os resultados do estudo OrigAMI-4 foram apresentados este fim de semana em Chicago, na maior conferência mundial de oncologia, a reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que recebeu cerca de 45 mil clínicos, a surpresa foi geral e o entusiasmo também.
Uma injecção subcutânea de amivantamab conseguiu eliminar completamente o cancro em 15 de 102 doentes com tumores da cabeça e pescoço que já não respondiam a nenhum outro tratamento. Conforme noticiou a SIC Notícias, Portugal não vai ficar de fora. Cinco centros hospitalares nacionais já abriram recrutamento para a próxima fase dos ensaios do OrigAMI-5, que alargará os testes a uma escala muito maior, nomedamente em Portugal ao Hospital de Santa Maria, o Hospital CUF Descobertas, o Hospital de Portimão, o IPO do Porto e a ULS Gaia Espinho.
O amivantamab é um medicamento desenvolvido pela Johnson & Johnson que foi inicialmente concebido para o cancro do pulmão. A novidade revelada em Chicago é que demonstrou resultados igualmente promissores nos cancros da cabeça e do pescoço, o sexto tipo de cancro mais comum no mundo, que engloba tumores da boca, garganta e laringe, e para o qual existem poucas alternativas quando a doença entra em recidiva ou fase metastática.
O que torna a injecção particularmente relevante é a forma como actua: de modo triplo sobre os mecanismos de crescimento tumoral, e por via subcutânea. Ou seja, uma pequena injecção sob a pele, mais rápida e menos invasiva do que a administração intravenosa habitual. No ensaio OrigAMI-4, os doentes que responderam ao tratamento fizeram-no de forma rápida, com os primeiros sinais de resposta a surgir em cerca de seis semanas e meia.
Os dados apresentados na ASCO mostram ainda que o amivantamab foi especialmente eficaz em tumores não associados ao vírus HPV, precisamente os casos considerados mais difíceis de tratar. Nesse subgrupo, a taxa de resposta global chegou aos 47%, segundo os resultados publicados no Journal of Clinical Oncology.
O ensaio destina-se a doentes com carcinomas da cabeça e do pescoço incuráveis por terapias locais e que ainda não tenham recebido tratamento sistémico para a doença. Numa primeira fase em Portugal, serão abrangidas 15 pessoas, com o primeiro doente a entrar ainda este mês na CUF Descobertas, segundo adiantou Diogo Alpuim Costa à Antena 1 a partir de Chicago. Os resultados do OrigAMI-4 sustentam já o arranque do OrigAMI-5, que funcionará como ensaio de fase III para registo, o passo que precede a eventual aprovação regulatória do medicamento para esta indicação.
Os especialistas mantêm a cautela habitual da ciência: ainda não se sabe se as respostas serão duradouras nem se os resultados se confirmarão à escala de milhares de doentes por ano. O que já se sabe é que, para quem tinha esgotado as opções, alguns tumores simplesmente desapareceram. E isso, para a oncologia, já é uma notícia rara.