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Madeira

As cerejas do pai continuam à venda na mesma rua

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Na rua mais famosa do Jardim da Serra, a cereja não é apenas fruto. É herança, memória e muito, muito trabalho. O terreno, hoje mantido por irmãos, foi do pai. As cerejeiras continuam ali, não apenas porque dão produção, mas porque arrancá-las seria como apagar uma parte da família.

“É uma dedicação, um amor. É manter enquanto se pode, em honra do nosso pai”, conta a produtora, Fernanda Paulos entre caixas de cerejas e clientes que chegam de Câmara de Lobos, do Funchal e de outros pontos da ilha.

Este ano, a produção foi melhor, ajudada pela chuva. Ainda assim, o trabalho continua exigente. As árvores novas precisam de água pelo menos uma vez por semana e a apanha mantém o mesmo peso de sempre, ou seja, esforço, paciência e muitas horas dobradas sobre a terra.

A venda faz-se ali há cerca de uma década, naquela rua, embora a ligação da família à cereja venha de muito antes. O pai já cultivava e vendia.

A casa, lembra, terá perto de 50 anos de história. Houve tempos em que a cereja compensava mais, em que a produção era maior e o negócio corria de outra forma. Hoje, continua a valer pelo rendimento, mas também pelo afecto.

“Com o nosso suor, com o nosso sacrifício, tem muito mais valor”, diz a senhora que veste uma camisolas onde se lê Festa da Cereja desde 1953.

Quando a cereja da produção própria já não chega, há quem compre fora para continuar a responder à procura. Não por facilidade, mas porque custa ver as pessoas passarem e perguntarem por cereja, esperando encontrar ali aquilo que sempre associaram ao Jardim da Serra.

A produtora fala da fruta como quem fala de uma coisa delicada. A cereja é melindrosa, exige cuidado e não perdoa distracções. Mas continua a ser procurada e continua a dar sentido àquela paisagem.

Entre as cerejeiras, há também nespereiras, pereiras e ameixeiras, sinais de uma agricultura pequena, familiar e resistente.

A vida levou-a à África do Sul, mas a decisão de voltar à Madeira parece definitiva. “Posso ir lá, mas não volto”, afirma. Diz que sempre foi mulher de garra, habituada a lutar, a trabalhar e a recomeçar.

Na Madeira trabalhou 22 anos e continua activa, fazendo pequenos serviços e ajudando quem precisa.

No fim, a história desta produtora resume muito do que a Festa da Cereja ainda representa: não apenas produção agrícola, mas pertença. Não apenas venda, mas continuidade. No Jardim da Serra, há cerejas que se vendem ao quilo. E há outras que pesam muito mais: as que mantêm viva a memória de quem plantou primeiro.

Festa da Cereja confirma boa colheita no Jardim da Serra

A 72.ª edição da Festa da Cereja voltou a encher as ruas do Jardim da Serra, confirmando aquele que é um dos mais antigos certames dedicados a um produto agrícola na Madeira. Segundo o presidente da Casa do Povo do Jardim da Serra, William Barros, trata-se da festa temática mais antiga da Região, cuja origem remonta a 1954.