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Rostos da Autonomia Madeira

A primeira vice-presidente do parlamento

Rita Pestana esteve, desde o início, no Sindicato dos Professores da Madeira, foi deputada e a primeira mulher vice-presidente da Assembleia. Hoje sente alguma tristeza pela forma como o seu partido, o PS, não consegue unir os militantes.

Rita Pestana já era um rosto conhecido quando chegou à Assembleia Legislativa da Madeira, em 1988, eleita na lista do Partido Socialista pelo círculo do Funchal. Esteve na criação do Sindicato dos Professores da Madeira e foi, durante muito tempo, um dos dirigentes mais activos. Uma conversa que pode ver e ouvir no podcast ‘Rostos da Autonomia’ (https://podcasts.dnoticias.pt/).

A entrada na política partidária foi natural, para uma jovem do Porto Moniz que, ainda com 20 anos, antes do 25 de Abril de 1974, já dava aulas na cave de uma capela.

“Era uma jovem de 20 anos, a dar aulas nos Lamaceiros, no Porto Moniz, na cave da capela. A minha sala de aulas era na cave de uma capela, uma daquelas escolas antigas, sem casa de banho, o recreio dos alunos era feito no adro da igreja e era lá que estava. Ensinei a ler, ensinei a escrever, dei aulas ao primeiro ciclo, nessa altura ensino primário, numa turma de primeiro e segundo ano e outra turma à parte porque havia muito poucos professores. No Porto Moniz cheguei a fazer três turnos, um de manhã, outro à tarde e outros à noite com adultos. Foi assim nos meus três primeiros anos. Depois aconteceu um dado muito importante, fui também pioneira na telescola, no meu segundo ano de serviço. Foi a possibilidade de muitos jovens, sobretudo dos meios rurais, fazerem o primeiro e segundo anos do ciclo.”

Viveu o 25 de Abril de 1974 no Porto Moniz e ouviu a senha da revolução ‘em directo’.

“Há uma curiosidade que já referi, tenho a sensação que ouvi Grândola Vila Morena em directo. Vivia numa casa sem luz, não havia televisão e o que me ligava aio mundo era um rádio a pilhas e lembro-me que nessa noite acordei para ouvir o Grândola Vila Morena. A senha do 25 de Abril. Não dormi mais. Isto porque, no Magistério, o padre Sumares, do Jardim do Mar, era o nosso professor de Educação Musical e foi com ele que dei os primeiros passos nesta coisa da política. Ele pôs-nos em contacto com as músicas de intervenção, com as portas e janelas trancadas. Por isso achei estranho ouvir aquilo no meu radiozinho a pilhas. Esse era o dia em que passava a carrinha a distribuir as cassetes da telescola e foi através do motorista e do inspector que soube que tinha havido um golpe de Estado”, recorda.

O núcleo da Juventude Socialista do concelho foi criado na ‘loja’ das semilhas e do vinho, na casa dos seus pais.

Aderiu ao PS, mas foi a actividade sindical, as lutas por um estatuto dos professores, concursos regionais e outras reivindicações que a marcaram mais. Não tem dúvidas de que, fora do parlamento, conseguiu muito mais porque, na Assembleia Legislativa, nos tempos das “maiorias absolutíssimas”, tudo o que a oposição apresentava acabava “no caixote do lixo”.

Como professora e dirigente sindical, acompanhou a evolução da Educação na Madeira e reconhece que, ao nível das infraestruturas, não há comparação possível com o que o que havia antes da Autonomia. Lamenta é que tenha faltado uma estratégia a longo prazo que fosse além do “construir por construir”.

“Sendo dirigente a tempo inteiro, também fazia parte do secretariado da Fenprof e dos grupos de negociadores junto do Ministério da Educação. Embora já houvesse alguma autonomia em termos educativos, era uma autonomia muito q.b.. A carreira docente era nacional mas, o que foi muito bom e foi um dos benefícios da autonomia em termos de educação, foi o facto de os concursos serem regionais. Isso foi mérito da negociação que mantivemos com a Secretaria da Educação”, explica.

No parlamento, Rita Pestana teve a seu cargo as questões da educação, os assuntos sociais e administração pública e protagonizou momento de confronto com a maioria social-democrata.

Foi líder parlamentar do PS, num tempo em que as disputas no parlamento eram muito intensas.

“Não eram tempos fáceis. Estive na política e gostei muito de estar, ninguém me obrigou, mas se me perguntarem o que é que me deu mais gosto, mais prazer, foi o sindicato. No sindicato nós conseguíamos coisas para dar aos professores. Na Assembleia, por mais que a gente trabalhasse, que passasse noites inteiras a trabalhar as intervenções para o dia seguinte, era igual ao litro porque ia tudo para o caixote do lixo

Depois de dois mandatos consecutivos, em 1996 não integra as listas do PS e volta à escola. É neste período que faz a formação em Educação Especial e continua a luta sindical.

O período em que esteve fora do parlamento, como assume na entrevista ao DIÁRIO, serviu para compreender que era muito mais útil a dar aula e  a “conseguir coisas para os professores” do que como deputado.

No entanto, em 2000, aceita o convite de Mota Torres para integrar a lista do PS e regressa ai parlamento. É nesta legislatura que será eleita vice-presidente da Assembleia, a primeira mulher a exercer esse cargo.

Um regresso ao parlamento que, embora sendo vice-presidente, reconhece que pode ter sido um erro.

“Tinha estado quatro anos fora do parlamento, depois de dois mandatos seguidos. Voltei para a escola, fiz o curso de especialização e dei aulas na Quinta do Leme e depois há novas eleições e o Mota Torres volta e eu volto com ele. É nesse terceiro mandato que sou eleita vice-presidente. Mesmo sendo vice-presidente arrependi-me de ter voltado à Assembleia. Ter estado fora deu-me a visão clara de que era mais útil na escola e no sindicato”.

Nestes 50 anos, o PS batalhou muito mas nunca chegou ao poder, foi ingratidão dos madeirenses? “Eu não chamarei ingratidão. Todos nós sabemos como é que o PSD nasce e o apoio que tem da Igreja Católica. Houve também da nossa parte, e vou do meu partido, o meu PS, algumas tricas e discussões que não faziam sentido. Andaram a guerrear-se uns aos outros”, responde.

Sobre o momento actual do seu partido lamenta que se cometam erros na mobilização dos apoiantes.

“Parece uma frase feita mas é o que eu sinto, acho que falta unir o partido. E posso dar um exemplo, e digo-o com alguma mágoa, neste último congresso que elegeu a actual presidente, nem sequer fui convidada, como outros. Deveria congregar toda a gente. Às vezes costumo dizer que eu já não faço sombra a ninguém, já não quero mais nada com a política. Mas poderia dar algum contributo.”

A saída da actividade política activa não reduziu a actividade sindical. Dirigiu o centro de formação do Sindicato dos Professores da Madeira.

Há mais de uma década,  superou um cancro de mama - quase em simultâneo com a filha mais velha - e foi convidada a dar o seu testemunho pela Liga Portuguesa Contra o Cancro. Fez um cursos de voluntariado e, hoje, integra um projecto de apoio a doentes oncológicos.