Uma questão de inércia ou defesa da identidade?
Nestes últimos tempos tenho constatado que numa determinada localidade, vários cidadãos queixam-se da falta de inércia ou de resposta como quiserem.
Nas comunidades pequenas o sentido de pertença é algo superior às vontades e ao progresso. Tende-se normalmente, invocando a defesa da identidade a relevar o que vem de fora e ideias que possam colocar em causa o status quo que caracteriza o local.
Como ambientes de pequena dimensão e com grande atratividade rapidamente são bafejados por inúmeras situações de projetos e propostas de investimento que perante tamanha complexidade e propensão para o desenvolvimento assustam certamente os locais.
No entanto quando confrontados com projetos que podem e devem alavancar o desenvolvimento local, a reação normal é de bloquear tais empreendimentos no sentido de proteger aquilo que é o existente e tradicional.
E é nesta comunidade e comunhão que se deve fazer a intervenção. Investir no progresso criando novos postos de trabalho envolvendo sempre a população residente, é uma premissa.
A mudança de paradigma é sempre algo que leva o seu tempo e normalmente são o resultado de um processo acumulado de tensão, adaptação e maturação que vinha acontecendo há bastante tempo. O curioso é que, quando estamos dentro da transição, ela parece lenta e confusa. Olhando em retrospetiva, parece inevitável.
E é nesta inevitabilidade que o progresso chega, a uma velocidade vertiginosa, sem retorno. O retorno seria caminhar para um envelhecimento cada vez mais acentuado e condenando a população a ficar fora do sistema global que caracteriza as sociedades de hoje.
Não se pode, nem se deve julgar que somos donos de qualquer mudança, ou que descobrimos algo que sozinhos nos vai levar ao êxtase do sucesso. Sem a participação dos locais, ainda recorrendo a migrantes nas áreas em que não existe “vontade” de envolvimento dos locais, sem a sua inclusão em alguns dos processos, qualquer projeto a implementar terá morte anunciada.
A defesa da identidade que, muitas vezes, à primeira vista, resulta em inércia, ou rigidez, deve ser o mote para o envolvimento de novos intervenientes, levando à renovação, ao surgimento de novas vontades e à (re)construção de novas realidades.
O progresso é o maior catalisador de mudança. Na componente social, deve ser acompanhado de perto e com olhos de águia, pois só o processo inclusivo legitima a transformação e a converte em benefício coletivo.
Esta é a grande questão dos dias atuais, a velocidade da mudança nunca deveria ultrapassar a capacidade coletiva de a compreender, discutir e integrar. Estas são as garantias de deixarmos um legado no futuro para os jovens e para nós que hoje desenhamos as políticas publicas e os projetos.
António Pedro de Jesus Nunes de Freitas