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Bangladesh enfrenta epidemia de sarampo mais grave em 20 anos com 320 mortos

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O Bangladesh está a enfrentar a epidemia de sarampo mais grave das últimas duas décadas, com mais de 50 mil casos registados e pelo menos 320 mortos desde março, admitiram as autoridades de saúde.

De acordo com especialistas, o surto no Bangladesh é atribuído à subnutrição, à redução do aleitamento materno e, sobretudo, à quebra na taxa de cobertura vacinal.

O país de 170 milhões de habitantes fez progressos na vacinação, mas as lacunas na cobertura após a revolta em 2024 que derrubou o governo autocrático de Sheikh Hasina deixaram as crianças gravemente expostas ao vírus mortal.

"Tive quase a certeza de que a ia perder hoje, o estado dela era terrível de manhã", disse Rina Begum, 45 anos, enquanto embalava a neta de 3 anos, à agência de notícias France-Presse (AFP).

Begum, com os olhos vermelhos de cansaço e lágrimas, explicou que a neta falhou a segunda dose da vacina aos 18 meses de idade, e passou as últimas duas semanas na ala de sarampo no hospital Shishu em Daca.

Em todas as salas do hospital reservadas às vítimas da epidemia, as mesmas cenas descritas pela AFP: crianças com falta de ar, que se movem com dificuldade, sob o olhar de pais e familiares preocupados e impotentes.

O sarampo é considerado uma das doenças mais contagiosas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que calcula em 95.000 o número de mortes que provoca todos os anos, sobretudo entre crianças não vacinadas com menos de 5 anos.

O vírus espalha-se através da tosse e espirros, e a doença não tem tratamento específico uma vez contraída.

Além de a vacinação ter sido afetada pela instabilidade política, a decisão de 2025 do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de cortar a ajuda ao desenvolvimento agravou a situação no Bangladesh, segundo a AFP.

Em resposta à crise, o Governo lançou uma campanha de vacinação de emergência que permitiu imunizar cerca de 17 milhões de crianças desde 05 de abril, mas os esforços ainda não travaram a propagação do vírus.

O país do sul da Ásia registou na segunda-feira o dia mais grave desde o início do surto, com 17 óbitos em 24 horas.

O ministro da Saúde, Abu Hussain Moinul Ahsan, alertou que é urgente aumentar a taxa de vacinação dos atuais 59% para 95% e garantir a imunidade de grupo, objetivo que espera que seja atingido no prazo de um mês.

O pequeno Siam, de 14 meses, tinha sido vacinado, mas, por falta da imunidade de grupo, não escapou ao vírus.

Admitido de urgência nos cuidados intensivos do hospital Shishu, só pôde sair 10 dias mais tarde e regressar a um quarto normal.

"Já não esperava voltar a ver o meu filho vivo", confessou a mãe, Brishti Akhtar, 20 anos, vigiando de perto o filho, ainda sob oxigénio.

"Mas, graças à ajuda dos médicos, ele está agora fora de perigo", acrescentou.

O ministro da Saúde assegurou esta semana que o sistema de saúde estava a aguentar o choque, apesar do fluxo de milhares de pacientes.

Ainda assim, o exército instalou recentemente um hospital de campanha de 20 camas no recinto do hospital universitário da capital, por precaução.

"O Governo pediu-nos devido à epidemia de sarampo", explicou o responsável pela unidade, o general Md Asaduzzaman.

O militar disse que a estrutura poderá também ser utilizada para tratar casos de dengue, uma vez que as chuvas intensas das últimas semanas provocaram o ressurgimento de mosquitos transmissores da doença na região.

"Esperamos que a infeção de sarampo abrande rapidamente", disse o general Asaduzzaman.

"E se for esse o caso, o nosso hospital de campanha poderá ser utilizado para a época da dengue", acrescentou.

O maior surto de sarampo no Bangladesh terá ocorrido em 2005, com mais de 25.000 casos suspeitos, de acordo com dados da OMS, número que tinha diminuído significativamente até ao surto atual.