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Venezuelanos esperam solidariedade de Portugal e mais atenção aos lusos detidos

Foto DR/ClippVe/X
Foto DR/ClippVe/X

Os venezuelanos esperam solidariedade de Portugal para com os presos políticos e mais atenção de Lisboa aos portugueses que continuam detidos no país, disse à Lusa fonte do Comité Pela Libertação dos Presos Políticos (ClippVe).

"Embora tenham dupla nacionalidade, continuam a ser portugueses, o Governo de Portugal tem a responsabilidade de, da mesma forma que os reconheceu como portugueses, reconhecer também que deve intervir para que usufruam das liberdades de que gozam os cidadãos portugueses", disse Beatriz Cisneros, porta-voz do ClippVE.

A ativista falava à Lusa em Caracas, no âmbito de uma vigília que domingo reuniu dezenas de pessoas nas proximidades do cárcere de El Helicoide.

Cisneros explicou ainda que não pode haver diferenças em relação os lusodescendentes e sublinhou que outros governos têm defendido mais ativamente os seus cidadãos. "E é isso que tem que fazer o Governo de Portugal", defendeu.

"Exatamente isso, sem mais nem menos. Estamos a pedir que nos apoiem nesta luta pelos direitos humanos, porque é evidente que aqui não há justiça", acrescentou.

A ativista referiu-se ainda à situação de um luso-venezuelano libertado recentemente, Héctor Ferreira, que descreveu como "insólita e inaceitável, porque, além de ter sido preso, roubaram-lhe a empresa".

"Infelizmente, muitos governos ainda precisam de tirar a venda dos olhos para perceberem que continuamos aqui sob o mesmo regime autoritário de quando [Nicolás] Maduro estava no poder", acusou, precisando que há mais de 500 presos políticos no país.

Sobre a diferença de casos registados pelas diferentes ONG, explicou que organizações como a Fórum Penal (FP) trabalham com critérios muito mais restritos para a definição de preso político.

"A Encontro, Justiça e Perdão, e a Clippve, trabalham com critérios mais amplos e, por vezes, recebem denúncias de desaparecimentos que não foram comunicados ao FP", disse.

Também em declarações à Lusa, a ex-presa política Sairam Rivas afirmou no mesmo sentido que "o aparelho repressivo continua a funcionar na Venezuela, não foi desmantelado".

"Querem dar a entender que existe um clima de normalidade na Venezuela, mas há centros de tortura que continuam a funcionar no país", denunciou.

Segundo Rivas, as pessoas estão a perder o medo, mas não foi assim há tanto tempo que, "numa semana, mais de 2.000 pessoas foram presas", entre elas líderes políticos e ativistas dos direitos humanos, enquanto outras procuraram o exílio ou a clandestinidade para não serem detidas.

"O próprio facto de podermos realizar este tipo de vigílias num espaço público aberto, repleto de jornalistas, onde comparecem líderes políticos e membros destacados da sociedade, já constitui uma diferença relativamente à forma como as coisas estão a evoluir", disse.

Também Rivas pediu a Portugal que "dê visibilidade à Venezuela, que continue a fazer pressão pelas vias diplomáticas pertinentes, para serem convocadas eleições, para que todos os presos políticos sejam libertados e que sejam encerrados todos os centros de tortura".

Leida Brito, outra ativista dos direitos humanos, explicou à Lusa que há 3.290 dias que sai às ruas a pedir a liberdade dos presos políticos.

"A Lei de Amnistia serviu apenas para libertar alguns presos, mas não os mais importantes, que são os militares", afirmou, referindo os nomes de vários detidos. "Uma transição com presos políticos não é uma transição", afirmou. "A liberdade não se negoceia", acrescentou.

A advogada e ativista dos direitos humanos Rosybel Torres manifestou-se muito preocupada, sublinhando que o tempo passa, mas há mais de 500 presos políticos no país. Entre os casos mais alarmantes identificou os de três oficiais da extinta Polícia Metropolitana, que estão presos desde há 23 anos, sem receberem benefícios processuais a que já têm direito, porque o regime não os reconhece como presos políticos nem como presos comuns.

"Visibilidade, a nível diplomático, sobretudo para as violações dos direitos humanos. É essa a solidariedade que pedimos. É esse o braço que queremos que a Europa nos estenda", disse, sublinhando que nas cadeias locais "há gente a morrer por falta de atenção médica".

Dados atualizados da organização Justiça, Encontro e Perdão dão conta de que na Venezuela há 667 presos políticos, entre os quais cinco portugueses.