DNOTICIAS.PT
País

Portugueses privilegiam a poupança de curto prazo

Estudo BPI salienta esse facto, "apesar dos riscos da longevidade no financiamento das pensões"

Foto Shutterstock
Foto Shutterstock

A crescente longevidade da população portuguesa não está a ser acompanhada por um planeamento individual estruturado para assegurar a qualidade de vida nos anos adicionais. Na área do investimento financeiro, seis em cada dez portugueses poupam atualmente, mas sobretudo a pensar em imprevistos de curto prazo e não no complemento dos seus rendimentos na reforma, revela um estudo da BPI Vida e Pensões.

Intitulado “Pensar o Futuro: como os Portugueses investem no seu futuro em saúde, relações sociais, espaços e ambientes e finanças”, o estudo é lançado hoje, dia 20 de maio, no BPI All in One, em Lisboa.

Com a coordenação científica da Prof.ª Maria João Valente Rosa, o estudo procura compreender como os portugueses encaram o seu futuro e a possibilidade de investir no seu bem-estar. Participam também o Prof. José Soares, a Prof. Rita Cunha e o Prof. João Bernarda, além da própria BPI Vida e Pensões. Os resultados revelam uma visão geralmente positiva sobre o futuro, mas apelam a uma reflexão sobre a necessidade de um "investimento" mais abrangente, que inclua não só a dimensão financeira, mas também a saúde, as relações sociais e os espaços de vida. A fragilidade do sistema de pensões e a tendência de a primeira pensão ser significativamente inferior ao último salário reforçam a urgência de uma preparação financeira atempada.

Isabel Castelo Branco, CEO da BPI Vida e Pensões, explica: “Estamos a viver um momento único na história, em que a expectativa de vida aumentou significativamente, permitindo-nos gozar de tempo de qualidade. No entanto, como sociedade, não estamos mentalizados para preparar esse tempo, porque a sociedade de vidas longas é um fenómeno recente. Por isso, é importante tomar consciência que há ações que estão no nosso controlo que nos podem ajudar a preparar esse futuro mais longo com maior qualidade de vida”.

As pensões de reforma tenderão a ser significativamente abaixo do último salário, sobretudo para pessoas que tiveram progressões relevantes de carreira. Estudo BPI

Investimento financeiro no futuro

Os inquiridos estimam viver, em média, até aos 84,2 anos, um horizonte muito próximo da esperança de vida real, mas antecipam uma deterioração da saúde por volta dos 66,5 anos, o que prolonga o período de vida dependente de pensões e poupanças acumuladas.

Apesar deste enquadramento, apenas 50,6% dos inquiridos admitem pensar regularmente no futuro a longo prazo, enquanto 67,3% consideram útil fazê-lo, evidenciando um desfasamento entre a perceção da importância do planeamento e a sua concretização.

O estudo identifica ainda três perfis de comportamento dos portugueses face ao investimento no seu bem-estar: 22,2% dos inquiridos assumem uma abordagem estruturada de investimento, enquanto 17,6% privilegiam o presente e 60,2% consideram que o melhor é conciliar as duas opções. 63,3% dos portugueses afirmam poupar atualmente, mas essa poupança destina-se sobretudo a fazer face a imprevistos e não a complementar o rendimento na reforma.

A preparação específica para a reforma permanece reduzida, com apenas 22,1% dos inquiridos a referirem possuir um Plano de Poupança Reforma (PPR), enquanto a poupança continua concentrada em instrumentos de baixo risco, como depósitos e produtos de capital garantido, com menor potencial de valorização ao longo do tempo.

Segundo os inquiridos, a falta de capacidade financeira surge como o principal obstáculo ao investimento no futuro. Os participantes no estudo atribuem elevada importância ao investimento financeiro, cerca de 7,7 numa escala de 0 a 10, mas avaliam a sua capacidade para o concretizar em níveis inferiores, que variam entre os 4,2 (produtos com maior risco) e os 6,1 (esquemas de poupança regular).

No entanto, o estudo evidencia o efeito multiplicador da capitalização na acumulação de património, mesmo com valores de poupança baixos. Segundo cálculos da BPI Vida e Pensões, uma poupança mensal de apenas 30 euros (360 euros anuais) investida em instrumentos com retornos médios de 5% (com mais risco) durante 40 anos, pode gerar um valor final 2,5 vezes superior face a instrumentos de baixo risco com um retorno médio de 1%. São 46.149 euros no primeiro caso, face a apenas 18.140 euros no segundo.

O estudo enquadra estes comportamentos num contexto de pressão crescente sobre o sistema público de pensões. As projeções da Comissão Europeia apontam para um aumento do peso no PIB das despesas com pensões até um máximo de 15% do PIB em 2046, sendo expectável que a primeira pensão seja inferior ao último salário, sobretudo em carreiras contributivas mais recentes.

Saúde e finanças lideram as prioridades de investimento, mas enfrentam barreiras: dos quatro eixos de investimento analisados (Saúde, Finanças, Relações Sociais e Espaços e ambientes onde se vive), a Saúde (média de 8,45 numa escala de 0 a 10) e as Finanças (média de 7,71) são consideradas as áreas mais importantes e urgentes para o futuro. No entanto, o investimento financeiro é percebido como o mais difícil de concretizar, muitas vezes devido a rendimentos insuficientes.

Seis em cada dez portugueses fazem poupanças sobretudo centradas no curto-prazo e não para complementar o rendimento na reforma, revela estudo da BPI Vida e Pensões. Estudo BPI

Investimento pessoal na saúde é a dimensão mais valorizada

O estudo revela que a saúde é a dimensão mais valorizada pelos portugueses, com uma classificação média de 8,45 em 10, sendo considerada a base para o bem-estar futuro e a condição necessária para que os restantes investimentos façam sentido=. Mais de metade dos portugueses já adotou comportamentos de investimento em saúde, como alimentação e vida saudável (58,1%) e consultas médicas regulares (56%), evidenciando uma maior proatividade nesta área face às restantes dimensões.

O investimento nos espaços e ambientes onde se vive é menos valorizado (7,35) e é frequentemente adiado. As intervenções estruturais são residuais. Segundo o estudo, apenas 7,7% dos inquiridos referem adaptações nas casas para limitações futuras, o que aponta para uma abordagem reativa e não preventiva.

As relações sociais são as menos valorizadas, com uma avaliação média de 6,99 em 10, apesar de 81,4% dos inquiridos manterem e reforçarem laços com amigos existentes, refletindo uma prática mais espontânea do que planeada.

Portugueses estão conscientes da sua maior longevidade e da necessidade de investir na saúde pessoal a longo prazo, mas valorizam menos outros fatores importantes para o bem-estar como as relações sociais ou o investimento nos espaços onde vivem. Estudo BPI

Estudo analisa como os portugueses investem no seu bem-estar futuro

Contando com a coordenação técnica e científica da Prof.ª Maria João Valente Rosa, o estudo procurou perceber como os portugueses encaram a perspetiva de uma vida longeva e o que estão efetivamente a fazer, ou não, para preparar esse futuro.

A análise centra‑se em quatro grandes dimensões do bem‑estar, e contou com um olhar focado em cada área, proporcionado por professores universitários especialistas na matéria: Saúde (Prof. José Soares); Relações Sociais (Prof.ª Rita Cunha); Espaços e Ambientes (Prof. João Bernarda); e Finanças, esta última desenvolvida pela BPI Vida e Pensões, tendo em conta os desafios que se colocam à evolução das pensões de reforma.

A metodologia do estudo envolveu uma abordagem mista: um estudo qualitativo com focus groups em Lisboa e Porto (54 participantes, divididos por faixas etárias de 40-55 e 56-70 anos), realizado em março de 2025, e um estudo quantitativo com 802 entrevistas a residentes do Portugal Continental (25-70 anos), realizado em maio de 2025. O objetivo foi quantificar perceções e expectativas sobre o futuro e a disposição para investir na sua preparação. Os dois eixos principais, que captam 85,5% da variância total da informação, demonstram que a disponibilidade financeira e a postura temporal são determinantes na forma como o futuro é encarado e preparado.

Pensar o futuro nas várias dimensões do bem-estar está associado a um maior controlo e autonomia na segunda metade da vida. Estudo BPI