Ex-detidos prometem lutar até que presos políticos sejam libertados na Venezuela
Vários ex-presos na Venezuela, líderes políticos, ativistas dos direitos humanos e centenas de civis participaram no sábado numa "grande assembleia de ex-presos políticos" durante a qual prometeram lutar até que todos os detidos arbitrariamente naquele país sejam libertados.
A assembleia, convocada pela aliança Plataforma Unitária Democrática, que reúne os principais partidos da oposição, teve lugar em Táchira (825 quilómetros a sudoeste de Caracas) e nela participaram ex-presos políticos como Freddy Superlano, Juan Pablo Guanipa, Biagio Pilieri, Roland Carreño, Carlos Azuaje, Juan Freitez, Yandir Loggiodice e o ativista Javier Tarazona.
A assembleia, chamada "Vozes da esperança", transformou-se num espaço de denúncia dos familiares de presos políticos, incluindo de militares.
Entre os ex-presos políticos presentes na assembleia estava o lusodescendente William Dávila, ex-governador do estado de Mérida, que em julho de 2025 foi libertado depois de ter estado preso mais de 11 meses e de ter ficado mais de 10 meses hospitalizado num centro médico em Caracas.
"É importante haver eleições [presidenciais] e que todos os presos políticos sejam libertados, e que haja o restabelecimento total das instituições do país. Não podemos continuar com presos políticos, nem com salários miseráveis e com toda a perseguição que fazem aos líderes sindicais e sociais", disse o lusodescendente aos jornalistas.
Por outro lado, o político e jornalista Biagio Pilieri explicou que os ex-presos "não vão descansar até que o último preso político seja libertado, até que cesse a perseguição e até que o aparelho repressivo do Estado deixe de funcionar para que haja uma rota clara a uma transição democrática" no país.
"Vivemos num cativeiro de consciência, um sequestro que pretendia silenciar a verdade, mas as grades nunca conseguiram silenciar a verdade. Estamos livres para libertar a Venezuela, para unir forças para defender a vida e a esperança de todos os venezuelanos. Que os mais de 600 detidos possam também sair das masmorras deste país", explicou Javier Tarazona.
Durante a assembleia foi enviada uma mensagem ao Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, explicando que "sem eleições, sem separação de poderes, segurança jurídica ou confiança, não haverá recuperação nem investimentos" na Venezuela.
Segundo a Organização Não Governamental (ONG) Justiça, Encontro e Perdão (EJP), na Venezuela estão presas 663 pessoas por motivos políticos, 86 delas mulheres e 577 homens.
Em 14 de maio, segundo a EJP, estavam presos 27 cidadãos estrangeiros,
Desses, a comunidade lusa local indicou que cinco têm nacionalidade portuguesa.
Entre os presos políticos estão 201 funcionários ativos dos organismos de segurança, um ativista e 360 civis. Também estão em prisão domiciliária 31 representantes de organizações políticas, 39 antigos funcionários do Estado, três sindicalistas e um jornalista.
"Entre o total (663) há 20 pessoas das quais não se tem informação oficial sobre o seu paradeiro. Além disso, contabilizámos 29 venezuelanos com dupla nacionalidade", explica a JEP num balanço divulgado nas redes sociais.
Na quinta-feira, o coordenador-geral do Programa Venezuelano de Ação e Educação em Direitos Humanos (Provea), Óscar Murillo, denunciou que a Venezuela mantém violações às convenções internacionais e aos direitos de estrangeiros e cidadãos com dupla nacionalidade, incluindo os portugueses.
"Estão a violar os Acordos de Genebra e as convenções internacionais. É um direito que cada cidadão com dupla nacionalidade tem de se dirigir a esse país [da segunda nacionalidade] para receber assistência consular. Isso não é um presente, não é uma concessão, é algo que está contemplado no Direito Internacional", disse.
Óscar Murillo explicou à Lusa que quando alguém é preso, as autoridades venezuelanas "devem notificar imediatamente o consulado", sublinhando que "isso não tem acontecido e, além disso, tem sido negado, às pessoas, o direito à defesa".