Como garantir sustentabilidade da saúde e evitar excessos no tratamento do cancro?
Albuquerque levanta dúvidas, Adalberto defende prevenção e Sobrinho Simões alerta para sobrediagnóstico
“Qual a solução para a sustentabilidade dos sistemas de saúde?” e “como convencer o doente de que nem sempre é necessário intervir em lesões de pequena dimensão?” Foram as duas questões colocadas pelo presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, na sessão aberta ao público da conferência ‘50 Anos de Autonomia – Saúde’, que juntou também o ex-ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes e o patologista Manuel Sobrinho Simões, fundador do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular e Celular da Universidade do Porto.
Albuquerque alertou para o aumento dos custos no setor, sublinhando que “os tratamentos, a tecnologia, os novos medicamentos têm custos aprovados e o crescimento é exponencial”, defendendo que “é fundamental percebermos qual a solução para a sustentabilidade dos sistemas de saúde”, num contexto de pressão crescente sobre o Estado Social.
Na resposta, Adalberto Campos Fernandes defendeu uma reorganização do sistema centrada na prevenção e na proximidade, avisando que “se cai apenas e só na ratoeira de ir atrás da despesa, não terá sucesso” e que “estamos a cair na ratoeira da indústria farmacêutica, que é ir atrás da doença”. O ex-ministro defendeu maior investimento em saúde pública, sublinhando que “por cada euro que nós metemos na promoção e prevenção, poupamos 10 euros” em tratamentos e resposta hospitalar.
Adalberto alertou ainda que “os custos vão subir e vão subir mais rápido”, defendendo uma gestão mais eficiente dos recursos e dos cuidados, numa realidade em que “metade dos portugueses têm cuidados a mais e metade têm cuidados a menos”. Considerou também que é “mais fácil gerir uma população” num território insular como a Madeira e lançou a ideia de “uma parte da taxa turística ser consignada à saúde”, lembrando que “o dinheiro tem de vir de algum sítio”.
Sobre a decisão clínica em oncologia, Manuel Sobrinho Simões alertou para os riscos do sobrediagnóstico, defendendo que “temos de evoluir numa coisa muito simples: não podemos utilizar a palavra cancro sem enquadramento da sua gravidade” e que “é essencial reforçar a literacia em saúde para evitar alarmismo e intervenções desnecessárias”, sublinhando a necessidade de maior precisão na comunicação com os doentes.