Madeira: uma referência do digital na saúde
Confesso que as áreas da inovação, das tecnologias, da reestruturação dos processos e da digitalização atraem-me muito. Talvez por isso, e pela experiência pessoal que tenho tido via familiares diretos pela utilização do sistema de saúde público regional, fizeram-me querer dar destaque ao investimento na área do digital da saúde que está a ser feito na Região Autónoma da Madeira (RAM). Sei bem que o investimento que vou falar não é nas atividades centrais da prestação de cuidados de saúde – atendimento clínico e resposta assistencial – mas tenho a certeza que, sendo complementar, pode potenciar os resultados de todas as intervenções na dimensão saúde.
Pelo recurso que tenho tido ao Processo Clínico Eletrónico Integrado já implementado pelo SESARAM (Serviço de Saúde da RAM) no qual, através do Portal do Utente ou da aplicação móvel, posso entre outras coisas, ter acesso a todos os registos de interações com os prestadores públicos de saúde na Madeira – Centro de Saúde, Hospital Dr. Nélio Mendonça e Hospital Marmeleiros, por exemplo – bem como aos exames de imagiologia, análises clínicas, documentos da área médica e enfermagem, etc…, pela forma como vejo os diferentes prestadores públicos de cuidados de saúde interagirem com o doente e o percecionarem, com conhecimento concreto dos dados e das diversas patologias individuais, só posso enaltecer a visão do Governo Regional na área da Saúde.
Chego até a dizer que por exemplo, por experiência pessoal, esta concretização permite, com a minha partilha dos dados e registos, os médicos que atuam no setor privado e a quem tenhamos de recorrer, possam otimizar a sua avaliação e as indicações pois passam a ter conhecimento de dados clínicos recentes, objetivos e relevantes.
Pelo interesse e experiência que mencionei, fui analisar melhor os investimentos em curso na RAM no âmbito da saúde e tenho de confessar que a surpresa foi grande e em bom. Constatei que a visão e ambição do Governo Regional é tão ampla que, a concretizar-se, faz-me pensar que o título deste artigo deveria ser “Madeira: Uma referência da grande transformação digital na saúde”
Digo isto porque além do projeto do SESARAM e que extravasa o processo clínico eletrónico integrado, há o projeto do Processo Clínico Único a ser desenvolvido pelo IA Saúde (Instituto de Administração da Saúde) e que perspetiva a integração total do registo de saúde do utente.
Este projeto não é apenas mais um programa de base informática e de digitalização, e representa a assunção de uma mudança de paradigma na saúde a nível regional e que levará a Região ao patamar de liderança neste domínio dado que permitirá que os utentes da Madeira passem a ter à disposição o seu registo clínico completo, ie, multidimensional, integrado e interoperável com diversos prestadores de cuidadores de saúde: os regionais (públicos e privados), os nacionais (por exemplo os serviços partilhados do Ministério da Saúde) e, a prazo, o europeu dado o que se perspetiva com o Regulamento Espaço Europeu de Dados de Saúde.
Esta ambiciosa iniciativa regional que já é referência e que já tem destaque a nível nacional, permitirá que tanto no setor público como no privado, o utente, independentemente da porta que use, seja visto como único e seja o centro de todo o processo. Poderá, inclusive, permitir que as tomadas de decisão sejam mais precisas, mais céleres e multidimensionais e que a localização geográfica e natureza do prestador seja irrelevante. Possibiitará também que se evite a perda e a repetição de exames e análises, e até a redundância em alguns atos clínicos, e facilitará a gestão de doenças crónicas na medida em que os cuidadores conseguirão ter uma visão global e o acesso sistemático aos dados concretos do utente.
Obviamente que, estando a estrutura implementada, a capacidade de melhoria de assistência clínica, mas também de gestão dos recursos financeiros públicos é enorme através da Inteligência Artificial e o potencial de evolução, que pode, por exemplo, permitir a conexão com os wearables - dispositivos eletrónicos que usamos no dia a dia e que integram tecnologia, como relógios, óculos e anéis - é imenso.
Ainda assim, não é novidade nenhuma que a implementação é e será complexa dado que os sistemas hospitalares e de gestão da saúde são historicamente fragmentados e as bases de dados que os suportam são, naturalmente, todas diferentes. A fiabilidade e atualidade dos dados a disponibilizar, a cibersegurança e o aumento do risco de ataques, a resistência e a desconfiança dos profissionais a envolver, principalmente se estes não reconhecerem valor acrescentado e sentirem as alterações como um acréscimo de carga burocrática, são fatores críticos de sucesso que, a meu ver, devem ser considerados mas não devem pôr em causa a ambição do projeto que já marca o futuro.