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Crianças vão aprender português em bairro pobre perto do palácio presidencial na Venezuela

Foto JBula_62 / Shutterstock.com
Foto JBula_62 / Shutterstock.com

Três centenas de crianças vão aprender português na Escola Paroquial Católica Madre Cabrini (EPCMC), de Cátia, um bairro populoso e pobre de Caracas que fica perto do palácio presidencial de Miraflores, afirmaram à Lusa responsáveis escolares.

"Para nós é muito importante o ensino da língua portuguesa. É muito importante, para o processo de instrução dos alunos, para o seu desenvolvimento cultural, humano e cristão", disse à Lusa o reitor daquela escola onde, na segunda-feira, decorreu a primeira aula de português.

Manuel Rodríguez, sacerdote, explicou ainda que a EPCMC está situada em Pérez Bonalde, Cátia, "uma paróquia muito humilde" da cidade de Caracas.

"Apesar de estarmos muito perto do palácio presidencial, ao mesmo tempo, somos uma zona pobre de Caracas, onde os alunos têm muito poucos recursos económicos", disse.

"A pobreza material não é pobreza mental. São coisas distintas. Uma pessoa pode ser pobre economicamente, mais rica da mente e de espírito", frisou.

Sobre Cátia, explicou ainda que era uma localidade onde no passado residiam muitos imigrantes portugueses, espanhóis, italianos, libaneses e sírios.

"É uma zona muito cultural, bastante importante. Mas com o processo de empobrecimento nacional, muitos imigrantes e filhos de imigrantes, optaram por regressar à sua terra e à terra dos pais", disse.

Questionado sobre como visualiza os alunos dentro de uns anos, o religioso explicou que "com muita esperança" e que "Portugal e a língua portuguesa podem ser um fator fundamental de transformação", uma ponte para o progresso, o desenvolvimento humano, cultural e cristão.

"Eu quero que, não apenas a igreja, mas a República inteira evolua, cresça, que seja uma referência de progresso, prosperidade e esperança para o mundo inteiro, para a América toda. Independentemente dos problemas económicos, problemas políticos, queremos, sonhamos que estes meninos sejam a esperança do mundo inteiro", disse.

Por outro lado, a lusodescendente Maria Teresa de Fátima Rodrigues Vieira, diretora da EPCMC, lembrou que a escola foi fundada em 1955.

"Em dezembro fizemos 70 anos, ainda celebramos o nosso aniversário", disse, sublinhando que ela própria estudou naquela escola, quando o chão ainda era de terra.

A diretora do estabelecimento educativo explicou ainda que a instituição disponibiliza o ensino desde o pré-escolar ao fim do secundário.

"Hoje temos aproximadamente 300 alunos. São estudantes de baixos recursos económicos, mas de pais católicos e com muita vontade de estudar. Com valores", frisou.

Sobre o ensino de português, explicou que o projeto "é uma grande bênção" para o colégio e agradeceu o apoio da Embaixada de Portugal e do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua.

"Todos [os alunos] estão muito contentes. Todos querem participar neste projeto da língua portuguesa", disse, afirmando-se emocionada, porque ao finalizar a primeira aula, alguns alunos despediram-se dizendo "muito obrigado" e "até amanhã".

Por outro lado, a professora de português Jéssica Murillo, que é natural de Cátia, afirmou estar muito "segura" do sucesso do projeto: "A experiência do primeiro dia de aulas foi simplesmente ótima. Gostei dos alunos, que mostraram muito interesse e das boas-vindas do colégio. Senti uma energia formidável, indescritível".

A ensinar a variante de português europeu, a docente disse que nas aulas vão aprender vocabulário, gramática e sobretudo pronúncia "que é uma das coisas mais complexas" para os venezuelanos.