Tolentino de Mendonça teme civilização de escravos com mau uso da IA
O cardeal José Tolentino de Mendonça alertou hoje para os riscos da Inteligência Artificial (IA), considerando que se vive um "momento fascinante" para a humanidade, que corre o risco de uma nova civilização composta por escravos.
Há o risco do "fim da humanidade e o nascimento de uma nova civilização em que a maioria de nós será escravo", avisou o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, numa conferência do encontro "Vaticano in loco", organizado para jornalistas portugueses em Roma.
"A Santa Sé partilha a profunda sensibilidade pelo momento em que nós vivemos", que é "um momento fascinante" de "transformação do mundo", semelhante ao que "se experimentou na transição das sociedades orais para a sociedade da escrita", com um "potencial que excede tudo aquilo que tínhamos previsto", afirmou o cardeal português.
Em causa estão as assimetrias no uso de IA, a falta de responsabilização dos principais operadores, a opacidade dos sistemas e o risco de despedimentos em massa, temas que têm sido abordados por vários responsáveis do Vaticano.
Quando foi eleito Papa, o agostiniano Robert Prevost tomou o nome de Leão XIV, assumindo-se como seguidor de Leão XIII, que sistematizou a doutrina social da igreja e alertou para as condições dos operários ao mesmo que recusou o materialismo marxista.
Há um ano, Leão XIV alertou para os riscos da IA e para a despersonalização das tecnologias, e espera-se que a sua primeira encíclica aborde o tema.
Citando Leão XIV, Tolentino de Mendonça recordou hoje que as "tecnofobias inúteis não servem" e que a Igreja não deve rejeitar a IA ou "construir uma aldeia do Astérix contra a tecnologia".
Mas sustentou que tem que se "sentar para falar efetivamente das coisas" e as "sociedades têm de encontrar o leme" e "navegar" os instrumentos de IA, mantendo-os como instrumentais e não um fim em si mesmo.
O cardeal português considerou que a humanidade vive hoje "um momento muito crítico" e essa "consciência existe" no seio da Igreja, procurando fazer uma "mediação" para assegurar o respeito da ética e da moral pelos mecanismos de IA generativa.
"Seja a vantagem extraordinária que não podemos perder", seja a "ameaça terrível à qual não nos podemos conformar", procurando "encontrar um equilíbrio", que é "o que todos desejam", disse.
A IA "é a questão do momento porque é aquela que vai ter uma maior incidência da transformação das nossas vidas", avisou o cardeal, em resposta aos jornalistas.
E nesta matéria, como noutras, as "linhas vermelhas" da Igreja Católica "continuam as mesmas: a dignidade da pessoa humana e a plenitude daquilo que é a vocação humana".
Alargando a resposta ao problema do discurso do ódio, que acaba por ser acentuado pelas novas tecnologias, Tolentino de Mendonça salientou que a Igreja "sempre defenderá que os seres humanos têm uma igual dignidade", recusando colocar "grupos humanos uns contra os outros", ao contrário de políticos, que, muitas vezes, "estão disponíveis para apoiar umas coisas e sacrificar outras".
A Igreja, disse, não faz cedências e deu o exemplo do esforço de Leão XIV na defesa da paz.
"Não é a paz a todo o preço, mas a paz tem de ser um valor central que temos de prosseguir", a par de outros desafios como a "grande precariedade", as alterações climáticas ou a "pobreza do mundo", acrescentou.