É comum milhares de ‘veleiros’ darem à costa na Região?
O areal do Porto Santo amanheceu no domingo coberto de ‘veleiros’, pequenos organismos marinhos da espécie Velella velella. As imagens de milhares de exemplares geraram curiosidade entre quem passou pela praia e também nas redes sociais.
Andreia Correia , 19 Abril 2026 - 12:26
Entre as reacções, houve quem confundisse estes organismos com a caravela-portuguesa, quem nunca os tivesse visto e quem considerasse este fenómeno perfeitamente normal.
“É um fenómeno normal e comum” e “normal e muito vulgar” fazem parte de vários comentários que se podem ler nas redes sociais.
Mas, será que é mesmo comum esta quantidade de ‘veleiros’ dar à costa na Região?
Antes de mais, importa distinguir as duas espécies: caravela -portuguesa e veleiro. Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), a caravela-portuguesa apresenta um flutuador em forma de balão e pode ter tentáculos que chegam aos 30 metros, sendo altamente urticante e potencialmente perigosa para os humanos. “São muito urticantes, capazes de provocar graves queimaduras e outros problemas em pessoas de saúde mais frágil. Deverá evitar o contacto com os tentáculos.”
Já o veleiro tem um flutuador em forma de vela triangular achatada, mede entre 1 e 7 centímetros e possui tentáculos curtos. “Na maioria dos casos não representa perigo para os banhistas, mas pode provocar alguma alergia ou irritação, sendo aconselhável evitar o contacto direto com os tentáculos.”
Ambas as espécies são azuladas e flutuam à superfície, podendo ser avistadas na costa portuguesa, sobretudo em determinadas épocas do ano. Tratam-se de fenómenos naturais e sazonais, associados a condições oceanográficas e ambientais favoráveis.
“Apresentam importantes diferenças no flutuador, na Caravela-portuguesa o flutuador tem uma forma de balão e a Veleiro tem um flutuador em forma de vela triangular. Importa salientar que se trata de fenómenos naturais e sazonais motivados por condições oceanográficas e ambientais favoráveis à sua reprodução e consequente arrojamento até às praias”, refere ainda.
Contactado pelo DIÁRIO, o biólogo e docente na Universidade da Madeira, Thomas Dellinger esclarece que estes organismos podem, de facto, dar à costa com alguma regularidade. No entanto, sublinha que a dimensão observada no Porto Santo não é habitual. “É regular, mas comum assim em grandes massas, não é.”
Explica que esta situação pode acontecer devido a “condicionantes do vento e oceanográficas que juntam estes animais, porque são animais que derivam à superfície do mar e o vento pode juntá-los”, acrescentando que situações semelhantes verificou apenas “umas duas ou três vezes ao longo dos últimos anos”.
“Não é uma coisa que aconteça com regularidade”, reitera.
Dá conta ainda que teve conhecimento que ocorreu, ontem, o mesmo na zona dos Reis Magos, na Madeira, mas não na dimensão encontrada na Ilha Dourada. “Parece que nos Reis Magos meia dúzia destes animais deram à costa, mas não sei em que quantidade. Não fui ver pessoalmente”.
“Nesta quantidade, como houve no Porto Santo, nunca tinha visto" Thomas Dellinger
No seu entender, dada a quantidade de espécies que ficaram ‘encalhadas’ na areia, esta deve ser limpa: “São animais meio gelatinosos e acho que não ficam ali durante muito tempo, mas se queremos ter as praias apetecíveis para as pessoas, convinha removê-los”.
“Como é uma praia utilizada por banhistas em grande número eu removia, mas se fosse uma praia sem banhistas, deixasse lá e eles vão desaparecer”, expõe.
Assim, não é correcto dizer que seja comum milhares de ‘veleiros’ darem à costa. O fenómeno em si — a presença de Velella velella nas praias — é natural e até relativamente frequente, sobretudo em determinadas épocas do ano e quando há condições de vento favoráveis.
No entanto, o que não é comum é a dimensão observada neste caso. Segundo o especialista, estas ocorrências em grande quantidade são raras e não acontecem com regularidade, tendo sido registadas apenas poucas vezes ao longo de vários anos.