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Crónicas

O tamanho do céu

De todas as coisas novas que comprou nenhuma teve o poder da televisão

Quando o ar dos tempos começou a subir encosta acima arrastado pela revolução, no Laranjal ainda se discutia se o homem tinha ou não tinha ido à Lua com a mesma convicção como se debatia o direito das raparigas a estudar nas escolas da cidade. O risco que seria deixá-las à solta no autocarro e na rua, longe da vista e à mercê das más intenções e delas mesmas. E também era frequente ver mulheres novas, casadas ou solteiras, com o cabelo grande, apanhado em tranças ou a cobrir as costas. Os pais e os maridos não permitiam que cortassem.

“O seu marido deixa?” A pergunta da cabeleireira na primeira vez que cortei o meu, tinha seis anos e ia entrar na primeira classe, deixou a minha mãe surpreendida. O meu pai andava ocupado com o trabalho e corria atrás do que havia aos dias de semana, aos sábados, domingos e feriados. O dinheiro era para comprar a vida melhor que se mostrava nas montras das lojas da cidade, com frigoríficos, máquinas de lavar roupa, televisões, secadores de cabelo, torradeiras e varinhas mágicas.

De todas as coisas novas que comprou nenhuma teve o poder da televisão. As minhas tias, o meu pai, a minha mãe e todos os adultos ficaram fascinados com a Gabriela, com os decotes e as liberdades que trouxe, mas nós não tínhamos idade para perceber essas subtilezas e, por isso, a nossa imaginação estava tomada pelos filmes de cowboys, pelos piratas que conquistavam navios de espada em punho e pelos astronautas do Espaço 1999 e do Caminho das Estrelas. À noite, quando o céu ficava cheio de estrelas, o meu irmão e eu íamos para cima do terraço a tentar perceber o espaço e o infinito.

O infinito era um lugar sem fim e era aquilo por cima das nossas cabeças, onde nos parecia possível caber mais planetas dos que havia no sistema solar e não tínhamos dúvidas de que, algures, num pontinho de luz daqueles haveria vida, extraterrestres bons e monstros, desertos e florestas. Ou talvez fossem mais, em mais pontinhos, talvez nos mais distantes. Embora a minha mãe dissesse que os OVNI’s eram só histórias, nós líamos todas as notícias que falavam de pessoas que tinham visto um objecto voador não identificado, era a prova de que havia mesmo vida no espaço.

Se o homem tinha ido à Lua não ia faltar muito para se lançar numa viagem maior numa nave como as das televisão. E nós, que tínhamos construído uma no palheiro da casa do meu avô com painéis feitos em papelão e desenhados com canetas de feltro, queríamos estar nessa aventura. Não sei se esse ainda é um sonho para os miúdos, mas nos 70, com a Maya e o senhor Spock, era. Pelo menos para nós, os dois miúdos em cima do terraço a tentar conquistar o espaço. Embora me confundisse o teletransporte e tivesse medo dos monstros que pudesse encontrar, não seria eu a recuar. Se o meu irmão ia, então eu também ia.

Pela fazenda atrás de ninhos ou numa viagem ao espaço, não seria muito diferente. E do medo daria conta e teria dado, não fosse o SkyLab e aquele Verão de 1979 quando todas as pessoas que viviam na Terra foram alertadas para a queda da antiga estação espacial. As notícias não eram claras e, sem certezas, cada um formou uma teoria e um cenário. Não foi diferente comigo que, durante umas noites, acreditei que ia cair-me em cima. O Skylab caiu ao largo da Austrália e levou com ele o meu entusiasmo pelo espaço, pelas naves e matou a ideia de me tornar astronauta.

Mas foi um propósito de vida para os que entraram na Artemis II e deram várias voltas à Lua. A viagem de regresso, transmitida em direto na televisão, levou-me aos anos 70, quando o homem avançava na aventura espacial e os direitos das mulheres ainda eram mal vistos no Laranjal. E foi como estar de novo em cima do terraço a debater o tamanho do céu com o meu irmão.