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Madeira

"Tem faltado muitas vezes a vontade política de resolver os problemas"

João Soares defende maior intervenção política e critica contexto internacional actual


Ex-ministro socialista falava aos jornalistas à margem da conferência ‘Conversas de Abril: 50 Anos de Autonomia’

O antigo ministro socialista João Soares defendeu este sábado, no Funchal, a necessidade de reforçar a capacidade de intervenção política na resposta aos problemas estruturais, considerando que “tem faltado muitas vezes a vontade política de resolver os problemas e de os enfrentar”.

O dirigente socialista falava aos jornalistas à margem da conferência ‘Conversas de Abril: 50 Anos de Autonomia’, onde deixou várias críticas ao contexto internacional actual, afirmando estar preocupado com a evolução da situação geopolítica mundial.

“Não sou por natureza pessimista, mas nunca estive tão triste e tão preocupado com aquilo que está a passar no plano internacional”, afirmou, apontando desenvolvimentos na Rússia, em Israel e nos Estados Unidos da América (EUA) como exemplos da actual instabilidade.

João Soares criticou ainda o impacto económico dos conflitos internacionais, defendendo que os recursos aplicados em guerras poderiam ser canalizados para o combate à pobreza. “O que é que já se gastou em drones, em mísseis, em aviões… é uma coisa que resolveria os problemas da pobreza”, referiu.

Neste quadro, o ex-ministro do PS lamentou igualmente a postura do actual presidente norte-americano, Donald Trump. "Eu vivi muitos anos ali no Campo Grande, onde viveram também os meus pais e o meu avô (...) e ali há um grande hospital, que era uma grande referência em Lisboa e em Portugal, o Hospital Júlio de Matos. Infelizmente, o actual presidente dos EUA é um caso não de tratamento ambulatório, mas de internamento, uma coisa parecida, porque aquilo é confrangedor", atirou.

Questionado pelos jornalistas sobre eventuais políticos portugueses (nacionais ou regionais) que pudessem ser “candidatos a internamento” no Júlio de Matos, João Soares escusou-se a invocar nomes.

No plano nacional, o antigo governante deixou críticas ao funcionamento dos sistemas políticos, apontando o excesso de legislação e a burocracia como entraves à acção. “Regredimos um pouco do ponto de vista da capacidade de intervenção dos responsáveis políticos a todos os níveis com o conjunto de legislação que fomos aprovando”, declarou.

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Sobre o quadro actual da autonomia regional, João Soares considerou que a criação do sistema autonómico representou “uma mudança muito positiva”, sublinhando que a Região Autónoma da Madeira apresenta “o PIB mais elevado do país”.

Ainda assim, alertou para a existência de “um problema de distribuição da riqueza”, que, na sua perspectiva, contribui para a persistência de “manchas de pobreza muito sérias”, incluindo em zonas do arquipélago.

O ex-governante afirmou também que o país mantém um forte centralismo, embora reconheça que essa percepção varia entre territórios. “Quem vive fora da área metropolitana de Lisboa acha que o país é muito centralista. Quem vive nas regiões autónomas ainda diz, pelo menos no poder político, que Lisboa tem tudo centralizado”, referiu, questionando se “passados 50 anos” essa realidade não deveria estar mais ultrapassada.

João Soares acrescentou que, apesar das queixas, as dificuldades sentidas no interior do país “às vezes não são tão grandes assim”, considerando que existe uma tendência natural de perceção de desigualdade territorial.

O socialista sublinhou ainda a posição geográfica estratégica das regiões ultraperiféricas, destacando a ligação da Madeira e dos Açores ao Atlântico, África e América, e a sua importância no contexto internacional.

Sobre a sua participação na conferência ‘Conversas de Abril: 50 Anos de Autonomia’, João Soares salientou que o convite ocorre num período que coincide historicamente com a a revolta da Madeira de 1931, que o próprio disse ter estudado. O histórico socialista entende que o Governo Regional tem tratado este episódio de forma pouco valorizada, quando "se tratou da maior revolta contra a ditadura em Portugal durante os 48 anos do regime".

A conferência, que decorre este sábado, no Funchal, integra um conjunto de iniciativas promovidas no âmbito das comemorações dos 50 anos da autonomia e conta com a participação de vários intervenientes ligados à vida política regional e nacional.

A iniciativa tem como oradores João Soares, histórico militante do PS, ex-deputado à Assembleia da República e ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Duarte Caldeira, um dos fundadores e actual presidente honorário do PS-Madeira, e Célia Pessegueiro, presidente do Partido. A moderação estará a cargo da presidente da Concelhia do PS-Funchal, Isabel Garcês.

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