Propaganda no Parlamento dos Jovens
A sessão do Parlamento dos Jovens na Assembleia Legislativa da Madeira deveria ter sido um exercício de cidadania, um espaço de aprendizagem democrática e de debate construtivo. Mas a intervenção do deputado do Chega, Francisco Gomes, acabou por transformar um momento pedagógico numa tentativa clara de propaganda política perante estudantes do ensino secundário.
Convidado para responder a perguntas sobre literacia financeira, o parlamentar optou por ignorar várias das questões colocadas pelos alunos e aproveitou o tempo para repetir o discurso político do seu partido. Em vez de explicar propostas concretas ou contribuir para o tema em debate, desviou a intervenção para assuntos como imigração, corrupção e críticas genéricas ao país.
Mais grave foi o tom utilizado. Perante uma plateia de jovens, Francisco Gomes decidiu ridicularizar questões relacionadas com identidade de género, recorrendo a comentários caricaturais sobre jovens que “não sabem se são cachorro ou gato”. Num espaço institucional e educativo, este tipo de linguagem não é apenas inadequado: revela uma preocupante falta de sentido de responsabilidade por parte de um eleito da República.
O Parlamento dos Jovens não é um comício partidário. Trata-se de uma iniciativa destinada a aproximar os estudantes da democracia e das instituições, incentivando o pensamento crítico e o respeito pelas diferenças. Usar esse espaço para fazer campanha política e lançar provocações ideológicas é desvirtuar completamente o espírito do programa.
A reacção dos próprios alunos foi, por isso, significativa. O voto de protesto aprovado por larga maioria mostra que os jovens perceberam bem o que estava em causa: a instrumentalização de um momento cívico para fins partidários e a utilização de um discurso populista num contexto que exigia seriedade.
Num exercício que deveria ensinar democracia, acabou por ser a atitude dos estudantes a dar a verdadeira lição.
Paulo Nuno Silva