Francisco Gomes em campanha no Parlamento Jovem alvo de voto de protesto
13 escolas secundárias participam hoje na iniciativa. O deputado do Chega aproveitou videoconferência para promover o partido, as escolas indignaram-se
Foi através de um processo democrático que foram escolhidos os alunos representantes das 13 escolas secundárias da Madeira que esta manhã participaram no Parlamento dos Jovens e foi também em democracia que esta manhã 38 dos presentes votaram favoravelmente a um voto de protesto contra Francisco Gomes. O deputado usou do espaço dedicado a uma sessão de perguntas sobre literacia financeira para fazer campanha juntos dos estudantes, pelo Chega.
Elevados à condição de deputados por umas horas, os alunos sentaram-se nas cadeiras dos eleitos pelo povo para uma sessão plenária que contou com o deputado do Chega, que participou através de videoconferência, e para debaterem os projectos de cada instituição em termos de Literacia Financeira, o tema da sessão. O parlamentar eleito pela Madeira à Assembleia da República não perdeu de vista os futuros eleitores e aproveitou para promover o partido numa intervenção dura que não poupou críticas ao país, aos que não trabalham, aos imigrantes e aos próprios jovens à procura da sua orientação sexual. Disse uns dias são meninos, outros meninas, outros não sabem se são “cachorro ou gato”.
O segundo dia do Parlamento dos Jovens começou com as intervenções da presidente da Assembleia, Rubina Leal, e da secretária regional de Inclusão, Trabalho e Juventude, Paula Margarido, que deram as boas-vindas e destacaram o papel da Assembleia, da Autonomia e da importância da participação no debate de ideias. A presidente da ALM enalteceu o Parlamento dos Jovens, um formato realizado em parceria com a Assembleia da República que vem se afirmando “como um espaço singular de formação cívica e formação política”. Rubina Leal deixou votos para que o debate fosse mais do que “simplesmente a reprodução de procedimentos parlamentares” e que proporcionasse uma “vivência concreta da democracia, enquanto prática quotidiana exigente e plural”. Recordou ainda que diariamente são feitas opções que não são necessariamente ideológicas, mas que são sempre políticas, uma introdução para abordar a importância da boa gestão dos recursos, sejam eles financeiros ou de outra natureza. A literacia financeira, tema do debate, acrescentou, promove os princípios éticos e sociais, a equidade, a sustentabilidade e a solidariedade intergeracional.
Paula Margarido apelou à capacidade de fazer a diferença na vida dos outros, referindo o papel do parlamento na concretização do bem comum e da importância de não permitir principalmente que o mais frágil fique esquecido. Margarido trouxe à sua intervenção o dilema dos deputados eleitos pelas regiões autónomas que são confrontados com o poderem ver ser aprovados diplomas que não são o adequado para a sua região, para incumbir os jovens alunos presentes de ao participarem no Parlamento dos Jovens a nível nacional fazerem ouvir a voz da Autonomia e fazer ver as suas idiossincrasias, para que na aprovação dos diplomas nacionais a “Autonomia não fique despejada daquilo que é o seu essencial”.
Na primeira parte da manhã, Ana Cristina, da Escola Padre Manuel Álvares, foi a primeira a usar da palavra para perguntar a Francisco Gomes que medidas foram tomadas pela Assembleia da República relativamente à Literacia Financeira. A Escola Dr. Luís Maurílio da Silva Dantas também perguntou ao deputado do Chega a representar a Madeira o que pretendia fazer para aumentar a Literacia Financeira dos alunos da Região; e a escola da APEL a concretizar com a questão se tivesse que tomar uma medida para aumentar a literacia financeira dos alunos no próximo ano lectivo, que medida seria. As perguntas não foram respondias, Francisco Gomes aproveitou os dez minutos de resposta para falar das saudades, do seu percurso como deputado iniciado há 15 anos naquele hemiciclo e para falar do papel do Chega em relação ao novo modelo do Subsídio Social de Mobilidade.
Disse que seria um desperdício centrar o debate apenas na literacia financeira, que é fundamental, mas disse haver muitos outros desfios, “enormíssimos”. E entrou no modo campanha, com as bandeiras da corrupção, da imigração descontrolada, da ameaça civilizacional, da criminalidade e outras. “Olhamos para a vossa geração com necessidade”, disse. “Precisamos, precisamos da vossa energia para reformar este país”, para corrigir, continuou, “todo o chorrilho de asneiras que foi feito nos últimos 50 anos”. Perante a plateia de jovens, assumiu estar assustado com imensos jovens, “gente que à segunda e à terça quer ser menino; à terça e à quarta quer ser menina; à quinta e à sexta não sabe se é cachorro ou gato e ao sábado está a discutir porque é que não tem o iphone de última geração”.
As perguntas continuaram, com o deputado à Assembleia da República a aproveitar o tempo para promover o partido, respondendo às perguntas que lhe permitiram falar das medidas do Chega, como quando foi questionado sobre o IRS Jovem mais abrangente e a redução do IRC podem contribuir para a estabilidade financeira dos mais novos ou como é que a redução da carga fiscal sobre as famílias e as empresas seria compensada, nomeadamente para pagar o Serviço Nacional de Saúde. Francisco Gomes usou da palavra para dize que o país não vai a lado nenhum ao taxar a 40% aqueles que produzem. “Tudo é pago. Só há um grupo de pessoas que não pagam, aquelas que não fazem absolutamente nada, aqueles que vivem de subsídios”. Foi o mote para um discurso mais endurecido sobre milhões de euros perdidos.
Sobre a literacia financeira, disse que defendeu no Orçamento de 2025 a inclusão no currículo das escolas aulas de literacia financeira para a elaboração de orçamentos pessoais, funcionamento do sistema bancário, o que são créditos, investimentos e poupanças, entre outras coisas. E entrou na crítica à banca.
Foi confrontado pela aluna Mariana Bichanga com a redução do número de votos em André Ventura nas eleições presidenciais. Francisco Gomes disse que as presidenciais são eleições em diferentes contextos e que na segunda volta foi o líder do Chega contra os outros nove partidos. E voltou à carga, com as leis anti-imigração e as críticas ao modelo de Subsídio de Mobilidade, colocando como meta o acabar com a plataforma e com o novo modelo.
Após o intervalo, foram apresentados e discutidos os 13 projectos de recomendação, um por escola. Na votação inicial houve um empate entre o projecto da Escola Jaime Moniz e o da Escola de Santa Cruz, à segunda votação foi aprovado o da Jaime Moniz, que será debatido na especialidade e irá representar a Madeira no Parlamento dos Jovens na Assembleia da República, na fase seguinte.
Antes do encerramento dos trabalhos para o almoço um jovem deputado da Jaime Moniz submeteu à mesa da Assembleia o voto de protesto contra Francisco Gomes, por se aproveitar de um momento apartidário para fazer política pura, pela tentativa de instrumentalizar e pelo desrespeito demonstrado. Este e outros deputados disseram não se rever no discurso populista e divisório do deputado do Chega. O voto de protesto foi apoiado por outras escolas e aprovado com 38 votos a favor.
O projecto de recomendação vencedor foi o da Escola Secundária Jaime Moniz, propõe a criação de um módulo de educação financeira obrigatório nas escolas; parcerias com entidades externas para acções de sensibilização; e dinâmicas práticas com jogos e simulações financeiras.