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Fact Check Madeira

O número de novos trabalhadores estrangeiros na Madeira continua a aumentar?

Na Madeira, Um dos sectores que mais tem sentido a falta de mão-de-obra é o da construção civil. 
Na Madeira, Um dos sectores que mais tem sentido a falta de mão-de-obra é o da construção civil. , Foto Shutterstock

A falta de mão-de-obra tem sido recorrentemente apontada pelos empresários da Madeira e do Porto Santo como um dos principais problemas que afectam os sectores da restauração ou da construção civil. No entender do Governo Regional e de algumas associações empresariais, a resposta passará pela contratação de trabalhadores estrangeiros.

Ainda no mês passado, o DIÁRIO dava conta de que, nos últimos 10 anos, o valor das contribuições dos estrangeiros a trabalhar na Madeira aumentou mais de seis vezes, passando de 6,5 milhões de euros, em 2015, para 44,8 milhões de euros, no ano passado.

Mas será que o número de novos trabalhadores estrangeiros na Madeira continua a aumentar, como frequentemente fazem crer as opiniões e o debate públicos? É isso que vamos aqui verificar.

No ano passado, a Segurança Social, contou com as contribuições de 11.261 trabalhadores estrangeiros, o número mais elevado de sempre, que se traduziu em 44,8 milhões de euros. No ano anterior, os números, que à data registavam outro recorde, fixaram-se nos 9.756 contribuintes e 34,2 milhões de euros.

Na última década, o número absoluto de cidadãos estrangeiros a trabalhar na Madeira tem registado uma subida praticamente constante, conforme levantamento feito a partir do número de pessoas estrangeiras com contribuições pagas à Segurança Social.

Em 2015 eram apenas 1.900; passaram a 3.210 em 2019, antes da covid-19; e nem mesmo a recessão pandémica levou a um abrandamento, pois em 2022 já eram 4.740 os trabalhadores de outras nacionalidades que não a portuguesa com registo de descontos feitos na Madeira para a Segurança Social. A subida continuou nos últimos três anos, chegando, respectivamente, a 7.387, 9.756 e os já referidos 11.261 trabalhadores estrangeiros.

Ainda assim, o nosso foco nesta verificação não se fixa nesse crescimento global, mas antes no aumento ou não de novos registos.

Ora, dos 11.261 trabalhadores estrangeiros que a Madeira somou no ano passado, apenas 1.858 dizem respeito a novos registos, menos 30% do que os verificados no ano precedente, com 2.656 novos trabalhadores.

Os dados oficiais da Segurança Social mostram que o verdadeiro ‘boom’ de novas entradas na Região Autónoma da Madeira já passou. O pico máximo de novas inscrições ocorreu em 2023, com 4.628 cidadãos estrangeiros a registarem-se pela primeira vez no sistema.

Desde então, temos assistido a uma inversão acentuada desta tendência e o fluxo de novos trabalhadores a chegar à ilha diminuiu 60% nos últimos dois anos, contrariando a narrativa de um crescimento exponencial contínuo neste âmbito.

A possível confusão reside, muitas vezes, na distinção entre quem chega e quem fica. Se olharmos para o total de trabalhadores estrangeiros activos, os números são, de facto, históricos: em 2025, existiam 11.261 estrangeiros a contribuir para a Segurança Social, na Madeira. Este valor representa um crescimento de quase seis vezes mais face aos 1.900 registados em 2015.

Ora, o que os dados provam não é uma ‘invasão’ actual, mas antes uma elevada retenção, pois os imigrantes que chegaram nos anos de pico integraram-se e permanecem activos no mercado de trabalho regional, refutando a ideia de que a Madeira seria apenas um ponto de ‘passagem’ para o resto da Europa. Entramos, por assim dizer, numa nova fase.

Devemos acrescentar, que, tal como o DIÁRIO noticiou oportunamente, estes trabalhadores são contribuintes líquidos positivos, ou seja, pagam muito mais do que recebem da Segurança Social, contrariando a ideia de que os mesmos são sobrecarga para o sistema públicos.

A título de exemplo, no ano passado, o total de cidadãos estrageiros a contribuir para a Segurança Social, na Madeira, traduziu-se numa receita de 44,8 milhões de euros e 5,7 milhões de euros de contribuições pagas por aquele organismo público a esses mesmos cidadãos.

Este ano, no mês de Janeiro, os 9.140 trabalhadores estrangeiros registados contribuíram com 3,7 milhões de euros e receberam pagamentos da Segurança Social na ordem dos 544 mil euros.

À parte o saldo positivo, se alguém afirmar que a imigração está a abrandar, os dados dão-lhe razão no fluxo, já que entram menos novos trabalhadores estrangeiros. No entanto, se alguém afirmar que a importância dos estrangeiros para a economia da Madeira nunca foi tão grande, os dados globais confirmam-no, já que o número total de trabalhadores não portugueses a contribuir para o sistema (11.261) é o mais alto de sempre.

Portanto, a Madeira deixou de viver um tempo de chegadas massivas para viver um período de consolidação de activos. O desafio dos empresários passa, agora, não apenas por atrair novos trabalhadores, que estão a chegar em menor número, mas por garantir que os actuais 11 mil permanecem na Região.

Em conclusão, avaliamos como falsa a tese de que o número de novos trabalhadores estrangeiros continua a aumentar na Madeira.

Tem sido recorrente a temática da falta de mão-de-obra na Madeira e a apresentação dos imigrantes como resposta ao problema. Mas continua a aumentar o número de novos trabalhadores estrangeiros na Madeira?