Segurança alimentar e sectores essenciais ameaçados em África
O investigador e especialista em temas africanos Miguel Silva alertou que a guerra contra o Irão que alastrou ao Médio Oriente afeta "preços, transportes e segurança alimentar" devido, nomeadamente, à escassez de fertilizantes, indo muito além da energia.
A disrupção atual, decorrente das fortes limitações de tráfego no estrito de Ormuz, já foi descrita pela Agência Internacional de Energia (AIE) e por analistas de mercado como a maior perturbação energética global desde a crise da década de 1970", referiu em declarações à Lusa o investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa.
O impacto mais imediato no continente africano "é de facto o energético", mas é redutor tê-lo apenas em conta, considerou, pois este afeta diretamente os setores agrícola, dos transportes e de distribuição de bens, por exemplo.
A insegurança alimentar tende a piorar muito depressa, afirmou o também docente no Forward College, da London School of Economics and Political Science, caso se aumente o preço, ao mesmo tempo, do combustível, dos fertilizantes e dos alimentos importados.
Em países de África, sendo "economias muito dependentes da importação de combustíveis e de bens básicos - como alimentos, medicamentos ou fertilizantes - o choque transforma-se rapidamente em inflação 'importada', com consequente aumento do custo de vida e maior vulnerabilidade social, sem que existam, em muitos casos, mecanismos de reação comparáveis aos disponíveis na Europa", referiu ainda.
Em concreto, disse Miguel Silva, em países como Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Senegal - vizinho da Guiné-Bissau - ou Quénia, a subida do petróleo não fica apenas no combustível: passa para os transportes, para os alimentos, para os medicamentos, no fundo, para o custo de vida.
De uma forma geral, frisou, este é o resultado da dependência económica da maior parte das nações africanas, característica que o investigador considera ser fruto do colonialismo, "que nunca acabou verdadeiramente".
O docente recordou também que esta situação acontece numa conjuntura de diminuição do financiamento da ajuda externa.
"A menor capacidade de investimento - tanto dos Estados, como dos investimentos diretos, ou das grandes agências multilaterais, (...) e o encerramento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) - já tinha iniciado grande parte destes problemas", referiu.
Os países africanos mais vulneráveis a esta crise são os que enfrentam, conjuntamente, a "forte dependência de importações, moedas frágeis e pouca margem orçamental".
Entre os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) nessa condição estão Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique, estando este último numa situação particular, por "razões mais complexas ligadas ao défice externo e ao peso das importações".
"Fora do espaço lusófono, eu incluiria também o Quénia, o Uganda, o Maláui e vários países do Sahel", onde poderá haver "estagnação do crescimento económico e aumento da inflação", adiantou.
A conjuntura pode ser benéfica para países africanos exportadores como a Nigéria, "que já está a beneficiar de maior procura pelo seu gás natural Liquefeito, a Argélia, que voltou a aparecer como alternativa para parte do gás que a Europa procura fora do Golfo e, claro, Angola, que pode receber aqui um incentivo para um aumento do Produto Interno Bruto (PIB) e do PIB 'per capita'", considerou o investigador.
Estes países "beneficiários" alertou, contudo, Miguel Silva, poderão ver um aumento de taxas de juro, que irão aumentar o valor líquido da dívida" e aumento da inflação".
Os Estados Unidos e Israel lançaram a 28 de fevereiro um ataque militar contra o Irão.
Teerão retaliou, com o encerramento do estreito de Ormuz e ataques contra alvos em Israel, bases norte-americanas e outras infraestruturas em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Líbano, Jordânia, Omã e Iraque.