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Quando os valores humanos falham

A dignidade não é negociável. Não é atribuída por maioria. Não é seletiva

Há momentos na vida política em que já não há espaço para ambiguidades nem discursos cuidadosamente equilibrados. Há momentos em que a política deixa de ser um exercício de retórica e passa a ser um espelho. Um espelho cru, desconfortável, que nos obriga a encarar aquilo que realmente somos enquanto sociedade.

E é precisamente nesses momentos que tudo se revela.

Revela-se quem está disposto a defender a dignidade humana sem hesitações, sem cálculos, sem conveniências. Mas revela-se também, e isso é ainda mais inquietante, quem escolhe ignorá-la, relativizá-la ou até atropelá-la em nome de narrativas vazias, muitas vezes disfarçadas de princípios.

Hoje, fala-se muito de valores. Invocam-se valores cristãos, valores morais, valores de família. Mas importa perguntar, com frontalidade: que valores são esses que excluem? Que moral é essa que afasta, que fere, que silencia? Que ética é essa que instrumentaliza a fé para justificar a negação da humanidade de outros?

Não nos enganemos: isto não são valores. Isto é medo travestido de virtude. É preconceito embrulhado em discursos moralistas. É discriminação com uma camada fina de respeitabilidade.

E não podemos, nem devemos, aceitar isso.

Não podemos aceitar que alguém se arrogue o direito de decidir quem merece mais ou menos dignidade. Que se estabeleçam hierarquias humanas. Que se diga, de forma mais ou menos subtil, que há pessoas que devem viver escondidas, caladas, diminuídas.

Isso não é opinião. É desumanização.

A dignidade não é negociável. Não é atribuída por maioria. Não é seletiva. Ou é de todos, sem exceção, ou deixa de ser dignidade.

E quando começamos a abrir exceções, quando aceitamos que “uns sim, outros não”, estamos a corroer os alicerces da própria sociedade. Hoje são uns. Amanhã pode ser qualquer um de nós. É assim que começa a erosão silenciosa dos direitos.

Isto não é uma divergência ideológica menor. É uma linha moral clara. E essa linha não pode, em circunstância alguma, ser ultrapassada.

Ou assumimos, sem reservas, que todas as pessoas têm igual valor, igual respeito e igual direito a existir, ou estamos a falhar, de forma grave, enquanto comunidade.

E esse falhanço não pode ser normalizado.

Recuso-me a aceitar uma sociedade onde alguém tenha de pedir autorização para ser quem é. Recuso-me a aceitar que se retire humanidade a quem apenas quer viver com dignidade. Recuso-me, sobretudo, a ficar em silêncio.

Porque, no essencial, tudo se resume a isto: uma sociedade mede-se pela forma como trata os mais vulneráveis.

E eu não aceito viver numa sociedade que vira as costas a quem mais precisa.