Pagar

Pagar para adoecer, pagar para saber, pagar para tratar.

Há coisas que revoltam um homem. Esta é uma delas. Pagas 65€ para ir ao médico. Cinco minutos de conversa, uma receita de análises e “volte depois”. Vais, fazes as análises, mais dinheiro, e quando regressas… mais 65€. Ou seja, pagas para te dizerem que tens um problema, pagas para o confirmar e pagas outra vez para te explicarem o que já suspeitavas.

Isto não é medicina de proximidade. É um sistema montado em prestações, onde cada passo tem um custo, e o doente vai passando à caixa como quem vai a um supermercado, só que aqui não há promoções.

O mais curioso é que ninguém estranha. Tornou-se normal. Como se a saúde fosse um serviço qualquer, dividido em parcelas: consulta, exames, interpretação. Tudo separado, tudo cobrado. E o doente, esse, vai ficando pelo caminho, não por falta de vontade, mas por falta de carteira.

Não se põe em causa o trabalho do médico. Estudou anos, tem responsabilidade nas mãos, e deve ser bem pago. O problema não está na profissão, está no modelo. Um modelo que transforma a necessidade em negócio e a fragilidade em faturação.

E depois há o tempo. Entre marcar consulta, fazer exames, voltar ao médico… passam dias, semanas. E quem está doente não está em modo de espera confortável. Está preocupado, às vezes com dores, muitas vezes com medo. E ainda assim, tem de pagar para andar às voltas no sistema.

Antigamente, o médico de família conhecia o doente, via o quadro todo, resolvia o que podia ali. Hoje, tudo é fragmentado. Mais moderno? Talvez. Mais humano? Nem por isso.

No fim, sobra uma sensação amarga: a de que cuidar da saúde está cada vez mais caro, e cada vez mais complicado. E isso, num país que se diz civilizado, devia dar que pensar.

Porque uma coisa é certa: quando ir ao médico começa a pesar tanto na carteira, muita gente começa a adiar. E quando se adia a saúde, paga-se mais caro depois.

E aí já não são 65€. É muito mais.

António Rosa Santos