Onde anda a bondade?

Há dores que não sangram. São silenciosas, profundas, instaladas num lugar onde a luz raramente chega. Uma delas é perceber que a bondade, essa virtude que nos ensinaram a tratar como motor de mudança, nem sempre floresce onde mais faz falta. Não por falta de vontade, mas por limite. Como uma lâmpada acesa num salão imenso: cumpre o seu papel, mas não vence todas as sombras.

Crescemos a acreditar que ser bom transforma o mundo, que a gentileza contagia, que a justiça encontra sempre o seu caminho. Mas chega o momento em que percebemos que a realidade não segue essa lógica. E é nesse choque entre o que acreditávamos e o que vemos que algo dentro de nós se desloca.

O mundo não recompensa a bondade com a regularidade que prometia, basta olharmos para os conflitos (guerras) à nossa volta. Há quem fira e avance, quem manipule e prospere, quem endureça e conquiste espaço. E, do outro lado, a bondade permanece muitas vezes discreta, sem medalhas nem aplausos. Não é derrotada, mas é silenciada. E nesse silêncio pesa mais.

Ainda assim, a bondade não desaparece. Transforma-se. Deixa de ser esperança de retorno e passa a ser escolha solitária, quase teimosa. Uma decisão que se mantém mesmo sem garantias, mesmo quando tudo à volta grita que não vale a pena.

Talvez o erro esteja na escala com que a medimos. Queremos que a bondade resolva o mundo inteiro, quando ela opera sobretudo nas margens: num gesto que evita uma ferida, numa palavra que trava um ciclo, numa presença que impede uma queda maior. Pequena demais para as “gordas dos jornais” e a “abertura dos telejornais”, grande o suficiente para mudar destinos invisíveis.

E talvez seja aí que reside a sua força: não em vencer sempre, mas em persistir apesar de tudo. Não em transformar o mundo de uma só vez, mas em recusar tornar-se igual ao que a fere.

Na sua resistência silenciosa, a bondade revela o seu poder mais verdadeiro.

José Augusto de Sousa Martins