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Madeira

Madeira afirma-se como laboratório nacional de treino em emergências em túneis

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A formação especializada em intervenção em túneis que decorre na Madeira está a consolidar a Região como verdadeiro laboratório nacional de treino operacional, reunindo formadores da Escola Nacional de Bombeiros e especialistas regionais num processo que pretende validar metodologias, transferir competências e preparar o sistema para responder a cenários complexos em infra-estruturas subterrâneas.

À margem do curso, o formador da Escola Nacional de Bombeiros, José Luís Silva, explicou que a área em desenvolvimento abrange o conjunto das infra-estruturas de circulação subterrânea, embora a prioridade actual esteja centrada nos túneis rodoviários. Segundo referiu, trata-se de um trabalho que tem vindo a ser preparado há cerca de dois anos em articulação com a Região e com formadores madeirenses, envolvendo capacitação internacional e desenvolvimento conjunto de conteúdos.

“O objectivo deste primeiro curso é afinar a formação, corrigir pequenas anomalias e fechar o processo para fazer a transição da capacitação total para a Região Autónoma da Madeira e para os formadores da Madeira”, explicou, sublinhando que a próxima acção já deverá ser maioritariamente assegurada por formadores regionais, com a Escola Nacional numa função de acompanhamento.

José Luís Silva destacou ainda as condições únicas da Madeira para treino com cenários reais, defendendo que “se há alguma região no país que tem, por natureza, túneis, é a Madeira, e foi aqui que conseguimos ter a possibilidade de utilizar um túnel real para fazer fogo real e treinar a capacitação de forma completa”, o que permite ultrapassar a limitação de abordagens meramente teóricas.

O responsável considerou que a experiência pode posicionar Portugal no plano europeu, lembrando que formadores portugueses já tiveram formação na Suíça e em Espanha, mas que a criação de capacidade própria permitirá desenvolver formação no país e até receber operacionais estrangeiros, desde que sejam reforçadas as infraestruturas físicas de treino.

A metodologia adoptada assenta numa sequência progressiva que inclui uma componente teórica, uma fase técnico-prática de familiarização com equipamentos e procedimentos e, por fim, exercícios com cenários reais, abrangendo reconhecimento, combate ao incêndio e operações de busca e salvamento.

Também presente na formação, Simão Santos, coordenador da área técnica de incêndios estruturais, enquadrou o treino na realidade específica da rede de túneis da Madeira, alertando para o facto de parte das infraestruturas ter sido construída antes das actuais exigências de segurança. Segundo explicou, “temos túneis com longas extensões construídos antes da legislação mais recente sobre saídas de emergência e caminhos de evacuação, pelo que a rede não está totalmente alinhada com as exigências actuais”.

O formador sublinhou que o foco operacional passa por criar condições para uma intervenção eficaz, referindo que o essencial é “garantir que os bombeiros conseguem salvaguardar vidas humanas e retirar veículos e bens envolvidos”, mesmo em cenários em que o bloqueio do trânsito aumenta o risco e a complexidade das operações.

Simão Santos, formador madeirense dos Sapadores do Funchal, destacou ainda a importância da sensibilização da população, explicando que em situações de emergência o pânico pode dificultar a actuação, pelo que é fundamental que os automobilistas respeitem semáforos, sinalização luminosa e instruções sonoras nas entradas e no interior dos túneis.

Quanto à evolução das infraestruturas, considerou que os novos túneis deverão incorporar soluções de segurança mais robustas, embora reconheça que a adaptação dos existentes é limitada pelas características geográficas da ilha, apontando que em alguns casos, como em túneis que atravessam o maciço central, a criação de saídas adicionais é tecnicamente difícil, sendo necessário apostar em medidas de mitigação e preparação operacional.

O especialista admitiu que a elevada densidade e extensão dos túneis aumenta a complexidade do risco, referindo que a Região possui algumas das maiores infraestruturas deste tipo e que eventuais ocorrências podem ter consequências mais gravosas, razão pela qual a preparação contínua é essencial.

A conjugação entre treino com fogo real, validação de modelos formativos e análise das condições específicas da rede viária reforça a ideia de que a Madeira se está a afirmar como espaço de experimentação e desenvolvimento de competências, contribuindo para elevar o nível de preparação dos bombeiros e para consolidar conhecimento que poderá ser replicado a nível nacional e internacional.