Mais do que uma sobrinha
Às vezes penso que tive várias mães e não sei como teria sido se não fossem elas, as minhas tias
Eu cresci protegida numa família que ia além do meu pai, da minha mãe e do meu irmão. Havia tias e tios, primos e primas e casas onde entrava como se fossem minhas e onde era mais do que uma sobrinha. Às vezes penso que tive várias mães e não sei como teria sido se não fossem elas, as minhas tias. E agora, que estou a uma semana de mudar para a casa do Laranjal, sinto a falta do excesso de opinião a propósito de tudo e imagino como estariam felizes por ter a Lina Marta de volta.
O rodopio que se iria fazer pois não ia faltar motivo para falar e partilhar as dores e as doenças, nem para aparecer com umas notas de 20 euros para ajudar na mudança, que dinheiro faz sempre falta e porque eu nunca deixei de ser a Lina Marta que, aos cinco anos, perdeu os sentidos no chão da sala da tia Alice enquanto brincava aos carrinhos eléctricos com o meu irmão. A minha tia não esqueceu o desgosto de me pegar ao colo, nem o desespero pelo tempo que levei a acordar.
Sou capaz de imaginar a minha tia Teresa a entrar pela cozinha para ajudar nas limpezas e na arrumação, sempre tão tímida, até na generosidade de dividir um dia de trabalho e canseiras. E eu teria de ter, algures dentro de uma caixa de lata, um bolo de mel para partir à hora do café, não havia melhor forma de retribuir, além de lhe garantir que estaria ali para a ouvir e nunca duvidar do bom senso e do coração caloroso que batia naquele corpo franzino. E às vezes era difícil carregar as preocupações das irmãs todas, dos excessos da tia Conceição e as manias da minha tia Alice. Tal como eu, faltou-lhe cedo a inteligência da minha mãe.
O meu tio Humberto seria requisitado para transportes, para trazer roupas e livros e a minha prima Ana, mesmo depois de resmungar, acabaria por ajudar a embrulhar e desembrulhar e dar ideias sobre a disposição dos móveis e as cores das cortinas. A minha prima Ana ensinou-me quase tudo sobre bom gosto, sobre as cores que combinam e as que ficam mal, ensinou-me a entrar numa loja e perceber onde está o que vale a pena olhar uma segunda vez. E se eu pedisse com cuidado talvez me ajudasse também com os transportes. Quando morreu tinha um Peugeot e gostava de acelerar.
E sei que, de todos, o entusiasmo maior seria o da minha tia Conceição, aquela que me dedicou um amor excessivo, muitas vezes complicado, mas sempre genuíno. Fui a última cara a desaparecer da memória antes da demência a levar, mas os melhores momentos dos últimos anos foram aqueles em que me reconheceu com a cara a encher-se de alegria. A tal alegria que a iria levar a comprar tudo o que pudesse para me ajudar a decorar a casa, de pratos, a colher e almofadas. Acho que iria encher uma mala inteira na viagem de regresso depois da visita aos amigos do Porto.
A família de tias e tios, primos e primas está em mínimos e eu levei 26 anos para voltar a casa. A morte levou tias, prima, pai e mãe e das pessoas com quem cresci, que me amaram quase como uma filha tenho memórias e só posso imaginar como seria, como estariam, por aqui, a dar opiniões, a intrometer-se, a tratar-me como se nunca tivesse crescido, como se fosse a menina que viram nascer, a companhia para ir ao médico e fazer visitas ao hospital ou para ajudar a carregar compras. A Lina Marta a quem davam, depois, livros, dinheiro para comprar bolos e amostras de perfume e que queriam proteger de todo o mal do mundo.