Missão cumprida no deserto
Vídeo retrata entrega de material solidário pela equipa do 'Le Nomad' a crianças em aldeias isoladas de Marrocos
Gonçalo e Nélson Rodrigues concluíram esta sexta-feira a primeira edição de 2026 do UniRaid
Pai e filho, naturais da Madeira, percorreram cerca de 2.500 quilómetros ao volante de um Peugeot 205 com mais de 15 anos, numa viagem de oito dias através do deserto de Marrocos, com um objectivo solidário: levar bens essenciais a comunidades com poucos recursos.
A dupla Gonçalo e Nélson Rodrigues superou trilhos exigentes, dunas e longas etapas sem recurso a GPS, orientando-se apenas com roadbook e mapas.
Um dos momentos mais difíceis aconteceu na etapa maratona, no penúltimo dia da prova. “O momento mais difícil foi em que durante a etapa maratona tivemos uma avaria crítica, a meio do deserto onde não se podia reparar. Uma avaria que significava provavelmente o fim da nossa jornada. Um sentimento de derrota avassalador e impotência. Com ainda 1700 km de viagem pela frente não sabíamos o que fazer”, relatou Gonçalo Rodrigues. A dupla acabou por ser rebocada até ao acampamento, onde o veículo foi reparado. “Essa noite foi dedicada ao conserto do carro, que lá se arranjou contra todas as hipóteses”.
Apesar das dificuldades, houve também espaço para momentos marcantes. “É difícil apontar um único momento memorável quando estás a conduzir no meio do Sahara enquanto navegas por pistas do antigo Paris Dakar num carro de 1000€”, explicou. Ainda assim, recorda um episódio em particular:
Enquanto éramos rebocados em pleno deserto, parámos para comer à sombra de uma Acácia de Tenere. Estávamos no deserto do Sahara a comer chouriço à sombra de uma Acácia, a ouvir dois participantes do Uniraid a tocar concertina enquanto um marroquino arranjava a sua motorizada. Foi um momento agridoce, duro mas estranhamente bonito e definitivamente memorável Gonçalo Rodrigues
Mais do que o desafio mecânico e físico, a experiência deixou uma marca profunda a nível pessoal. “Ganhei uma perspectiva diferente sobre o mundo, sobre talvez como se leva a vida. É o cliché dos clichés, mas creio que às vezes não precisamos de muito para ser felizes. E que talvez a felicidade cria-se e não se compra”, partilhou.
Durante a viagem, um momento de contemplação numa passagem de montanha reforçou essa reflexão. “Reparei numa mulher de hijab sentada numa rocha a olhar o vale. Senti uma paz que não sei explicar. O que senti naquele momento foi que a casa dela não se resumia às quatro paredes de adobe atrás de si. A casa era também a montanha, o vale, o silêncio, o vento seco e aquela paisagem crua”, descreveu.
Ali percebi que talvez, para nós, a casa seja muitas vezes uma fronteira, um refúgio contra o mundo, enquanto ali parecia ser apenas um ponto dentro dele Gonçalo Rodrigues
O projecto, acompanhado pelo DIÁRIO desde Novembro, mobilizou também o apoio da comunidade madeirense, permitindo aumentar significativamente a quantidade de donativos inicialmente prevista.
Peugeot 205 ‘Le Nomad’ transformado em obra de arte itinerante
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No vídeo, é possível ver o momento da entrega e a reacção das crianças, num dos instantes mais marcantes de uma aventura que uniu solidariedade, superação e partilha:
A viagem terminou com a missão cumprida e com a certeza de que o objectivo solidário foi alcançado, num percurso que reforçou não só o espírito de entreajuda, mas também os laços entre pai e filho e uma nova forma de olhar o mundo.
Espero que tenhamos feito a diferença e acredito que, de alguma forma, sim Gonçalo Rodrigues