Diplomata francês citado nos arquivos Epstein "contesta todas as acusações"
O diplomata francês citado várias vezes nos arquivos associados a Jeffrey Epstein e alvo de uma investigação norte-americana por consulta de imagens de pornografia infantil "contesta todas as acusações imputadas", afirmou hoje a advogada.
"O que foi indicado sobre os supostos factos de 2013 é total e puramente falso. Nunca houve qualquer consulta a sítios de caráter pedopornográfico. O FBI [polícia federal norte-americana] já investigou sem que qualquer processo tenha sido instaurado e as investigações realizadas em França chegaram à mesma conclusão", escreveu Jade Dousselin, num comunicado enviado à agência de notícias France-Presse (AFP).
Dousselin precisou que o seu cliente, Fabrice Aidan, "está à inteira disposição da justiça para responder a todas as perguntas".
A simples menção do nome de uma pessoa nos ficheiros Epstein não pressupõe, à partida, qualquer ato ilícito por parte dessa pessoa. Contudo, os documentos tornados públicos evidenciam a existência de ligações entre o criminoso sexual Epstein ou um círculo próximo.
Esta manhã, através da porta-voz governamental, Maud Bregeon, o executivo francês incentivou "as mulheres que tenham sido vítimas" em casos relacionados com o processo Jeffrey Epstein a "falarem e recorrerem à justiça".
"É claro que toda a luz deve ser feita sobre este caso terrível e tentacular", afirmou Bregeon, após uma reunião do Conselho de Ministros francês, considerando que cabe à justiça "fazer o seu trabalho".
O apelo do governo surgiu pouco depois de o chefe da diplomacia francesa, Jean-Noel Barrot, se manifestar "estupefacto e indignado" com os factos, divulgados na véspera, e que envolvem Aidan, cujo nome surge por diversas vezes nos ficheiros associados ao criminoso sexual norte-americano, encontrado morto na prisão em 2019.
"Quando tive conhecimento destas informações, fiquei estupefacto e fiz o que qualquer pessoa teria feito no meu lugar", comunicar à justiça e desencadear um inquérito administrativo, bem como um procedimento disciplinar, pois os factos em causa "são de extrema gravidade", declarou o ministro à rádio francesa RTL.
"Mas proíbo-vos de insinuar que isso possa manchar os agentes do Ministério dos Negócios Estrangeiros [...] que nada têm a ver com isto", acrescentou, sem excluir que outros diplomatas franceses possam estar implicados.
Aidan é atualmente "secretário principal dos Negócios Estrangeiros em situação de licença por conveniência pessoal", indicou Barrot, na terça-feira à noite na rede social X, e exercia funções na empresa de energia Engie, que o suspendeu na sequência de notícias difundidas pela comunicação social, disse o grupo à AFP.
A divulgação de três milhões de documentos da investigação ao criminoso sexual norte-americano Epstein, feita no início deste mês, reacendeu controvérsias que atingem figuras políticas, a realeza britânica e norueguesa e instituições internacionais, com impactos em França, Reino Unido, México e Rússia, envolvendo também o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Documentos consultados pela AFP mostraram que Aidan trocou, ao longo de anos, dezenas de mensagens de correio eletrónico com Epstein.
Segundo o jornal digital Mediapart e Radio France, que divulgaram o caso, Aidan terá dado a Epstein "informações diplomáticas, serviços ou os seus contactos a nível internacional".
As primeiras trocas de mensagens registadas remontam a 2010, quando o diplomata estava destacado pela França junto das Nações Unidas, onde era conselheiro do diplomata norueguês Terje Rod-Larsen, que é também alvo de uma investigação na Noruega, assim como a mulher, Mona Juul, por "cumplicidade em corrupção agravada" e "corrupção agravada", devido às ligações a Epstein.
A divulgação dos ficheiros Epstein levanta "suspeitas graves sobre atos ilícitos cometidos por indivíduos, mas também sobre influências de ingerência na vida política de países europeus, incluindo a França", afirmou ainda Jean-Noël Barrot à RTL.
"Parece-me que o lugar destes documentos é nos tribunais, nos tribunais judiciais, e não nas redes sociais", acrescentou.
Segundo o Mediapart, a ONU foi alertada em 2013 pelo FBI para a existência de uma investigação suscetível de implicar Fabrice Aidan, em Nova Iorque, por alegadas consultas de portais de pornografia infantil.
Um porta-voz do Quai d'Orsay explicou ao Mediapart que, não tendo sido deduzida qualquer acusação pela justiça norte-americana à época, não foi equacionada qualquer sanção em França.
Barrot não comentou este ponto na RTL.