Região cada vez mais dependente do exterior para se alimentar
Professor Miguel Carvalho alerta para quebra da produção agrícola, envelhecimento dos agricultores e pressão imobiliária
A Madeira está cada vez mais dependente do exterior para garantir o abastecimento alimentar, uma situação que poderá agravar-se nos próximos anos devido à redução da produção agrícola regional e às dificuldades nas cadeias de abastecimento. O alerta foi deixado esta manhã por Miguel Carvalho, coordenador do ISOPlexis – Centro de Agricultura Sustentável e Tecnologia Alimentar, à margem da conferência ‘Engenharia à Mesa’, promovida pela Ordem dos Engenheiros Técnicos, no Centro de Congressos da Madeira.
“A Madeira está super dependente do exterior neste momento”, afirmou o investigador, considerando que a diminuição da produção local já tem consequências nos preços dos alimentos e na disponibilidade de determinados produtos, sobretudo frescos.
Segundo Miguel Carvalho, a redução das áreas agrícolas e do número de pessoas dedicadas à actividade são factores determinantes para esta realidade. Muitos dos agricultores que permanecem no sector produzem essencialmente para consumo próprio, enquanto outros enfrentam dificuldades no escoamento e comercialização dos produtos.
O investigador da Universidade da Madeira alertou ainda para os riscos associados à dependência de cadeias de abastecimento longas, que podem comprometer a frescura dos alimentos e tornar a Região mais vulnerável a eventuais perturbações no transporte e fornecimento.
A pressão imobiliária constitui outro dos obstáculos à manutenção da agricultura, dificultando o acesso à terra e contribuindo para o abandono da actividade.
Miguel Carvalho chamou igualmente a atenção para o envelhecimento dos agricultores e a ausência de renovação geracional, problema que também se reflecte no ensino superior, onde os cursos ligados à agricultura despertam cada vez menos interesse.
O responsável recordou que, perante o crescimento da população mundial, será necessário aumentar significativamente a produção alimentar até meados do século, num contexto de redução das áreas cultiváveis e de agravamento das alterações climáticas.
Defendeu, por isso, a necessidade de preservar a capacidade produtiva da Madeira e tornar a agricultura economicamente atractiva, sobretudo para os mais jovens.
Nesse sentido, destacou o trabalho desenvolvido pelo ISOPlexis, da Universidade da Madeira, na procura de soluções que permitam rentabilizar a produção e a transformação alimentar.
Para Miguel Carvalho, a agricultura não deve ser encarada apenas como uma actividade produtora de alimentos, mas também como um sector essencial à preservação da paisagem, à dinamização económica e ao desenvolvimento do turismo.