O aluno e o professor
Há dias, o aluno zangou-se com o professor por entender que este lhe tinha faltado à palavra.
Mas, afinal, de que se trata?
Será que o assunto é assim tão grave, ou tão importante, que mereça a projecção nacional e internacional que tem tido? Quanto a esta, ao que nos parece, será apenas mais uma notícia do dia. Bom, mas por onde começar, de forma objectiva?
1 - Os comentários e as condenações
Respeitando os comentários que nos parecem sensatos e que foram transmitidos de forma honesta e intelectualmente nobre, outros, ou alguns deles, não passaram de mera especulação, alimentando conversas que, sem mais, atribuíram as culpas e as condenações ao aluno.
Até se lamentou, vejam só, que a sua explicação pública e honesta dos factos não teria sido feita por ele! Valha-nos Deus! Mas que santa ignorância! Que visões curtas!
O aluno, pobre pequeno, na perspectiva dessas mentes, terá cometido um crime de lesa-majestade. Já está julgado! Já está condenado!
Mas, agora, o aluno número 7, da turma CR, da Escola dos Heróis, já não é o melhor? O melhor do mundo, aliás? Vejamos!
2 - Fixação dos factos
O aluno, apesar de já ter um excelente currículo, com notas de topo, queria e quer superar-se cada vez mais, procurando também enaltecer os seus admiradores e a nossa Pátria.
Ia fazer um trabalho para melhoria de nota, uma vez que tinha tido apenas 19,99 valores de média final. Porém, como o jovem não simpatiza com vírgulas, por sugestão do professor iria desenvolver um trabalho sobre o tema “A humildade e a honestidade”. A apresentação à turma teria a duração de 30 minutos, mas seria também pública. Tratava-se de um trabalho de enorme responsabilidade, pelo que o aluno teve de estudar imenso e, inclusive, praticar desporto para estimular a circulação, sobretudo a cerebral, e descontrair antes da apresentação.
Até a própria encarregada de educação, numa deslocação à Escola dos Heróis, ao falar com o director da turma CR, fez questão de referir que o seu educando tinha estudado imenso, que o tinha ajudado muito nos dias anteriores à prova e de recordar ao senhor director que o filho era inteligentíssimo, gostando de se superar a si próprio e de ultrapassar o universo.
3 - Quem é quem?
O aluno tem 41 anos e é oriundo de uma família humilde da Pérola do Atlântico. Não obstante a escassez de recursos, esse menino teve berço, cresceu numa família tradicional, mas bem estruturada emocionalmente, onde existiam apoio e solidariedade de todos para todos.
Mostrando talento para livros redondos, a família deixou-o voar para a Academia que tem o seu nome desde 2020.
Daí partiu para o futuro, levando a Pátria Portuguesa aos quatro cantos do mundo. Tornou-se o português mais conhecido de todos os tempos e foi eleito cinco vezes como o melhor dos melhores, recebendo as respectivas distinções douradas.
Apesar de ter chegado onde chegou e de ter conquistado tudo o que conquistou, o aluno n.º 7 da turma CR nunca traiu os seus valores iniciais: humildade, responsabilidade e dedicação ao trabalho.
A nobreza de carácter do 7 da CR está bem patente na resposta que deu a um jornalista, há não muito tempo: “Desejo que o mundo tenha um caminho pacífico (…)”.
O professor tem 72 anos.
Uma vez que já atingiu a idade de 66 anos e 9 meses, pode pedir a aposentação. Mas ele é que sabe o que é melhor para si.
Filho de futebolista, seguiu os passos do pai até se tornar professor em diferentes escolas, tendo passado pela Escola Básica de Felgueiras, pela Escola EB+1 de Setúbal e pela Escola Secundária da Estrela Amada.
Teve dois percalços, com desempenhos menos bons, nos anos lectivos de 1995/96 e 2004/05. Contudo, deixemos esses dois anos para trás, já que a psicologia positiva e o conhecimento das regras pedagógicas aconselham a valorizar mais o que é bom em detrimento do que é menos bom.
Afinal, todos temos o nosso mérito!
4 - Afinal, quem é que tem razão?
Antes de mais, não se trata de “egos”. Ego, todos nós temos. Todos sentimos necessidade de sermos bem vistos pela comunidade e de obter reconhecimento.
No presente caso, nem o aluno nem o professor agiram bem. Trata-se, acima de tudo, de uma crise de liderança.
O professor combinou com o aluno a apresentação pública do trabalho durante 30 minutos. O aluno preparou-se afincadamente. Não fosse ele quem é! O professor sabia que o aluno era brilhante, era (e é) o homem que gosta de se superar a si próprio.
No entanto, no momento da apresentação, o professor disse ao aluno que já não iria apresentar o trabalho. Que desilusão! Que revolta! Que frustração! Legítimas, claro!
É como se costuma dizer: “Quem não se sente não é filho de boa gente”. Ninguém, com o mínimo de amor-próprio, ficaria satisfeito.
Dizer ao aluno que já não iria apresentar o trabalho, depois de tudo planeado e de tanto esforço, nas entrelinhas, é o mesmo que lhe dizer: “Já não prestas! Não fazes aqui nada! Podes ir-te embora!”.
E foi o que o aluno fez. Abandonou a turma e foi-se embora.
Porém, e a sua falha está aqui, sendo ele o chefe de turma, não avisou os colegas, nem sequer o subchefe da turma CR.
Trata-se de uma atitude menos boa, mas perfeitamente compreensível perante a frustração sentida. Noutras circunstâncias da vida, quem não faria pior? Imagine-se um casamento em que, chegados ao altar, o noivo diz à noiva: “Não vamos casar. Já não te amo!”.
Por seu turno, o professor também agiu mal. Apesar do longo tempo de serviço e de já reunir os requisitos para a aposentação, o senhor professor não esteve bem.
Certamente já se esqueceu das regras pedagógicas e de psicologia da educação que aprendeu.
A liderança não consiste em obrigar, autoritariamente, os outros a fazerem aquilo que o “líder” quer, sob pena de sermos autoritários em vez de verdadeiros líderes.
Assumir que “quem manda na turma sou eu” e que “ninguém manda naquilo que eu penso, zero, zero” é uma postura típica de uma pessoa autoritária, e não de um verdadeiro líder.
De alguém que não sabe partilhar a gestão, que deveria ser democrática.
Dizer “eu pensei que…” para justificar uma decisão autoritária não passa de uma desculpa subtil para justificar o autoritarismo, pelo que não convence.
Um bom líder não é aquele que impõe o caminho às pessoas, mas sim aquele que tem a arte e o empenho de mobilizar multidões e de as conseguir levar, em paz e harmonia, a atingir os seus objectivos.
Sobretudo na área da educação desportiva, um mister tem de ser um líder e um amigo, estando sempre aberto ao diálogo e dando o exemplo. Perante os factos acima expostos, graduo a culpa em 10% para o aluno e 90% para o professor.
5 - Gostaria que o mundo seguisse um caminho pacífico
Um pensamento profundo que, em poucas palavras, diz muito: A paz no mundo! Afinal, por que razão estes homens não deverão promover um caminho pacífico entre si e para o mundo, dando as mãos e seguindo em frente, louvando e elevando a nobreza, cada vez maior, da nossa Pátria, da nossa nação e do nosso povo?
O aluno já pediu desculpa e fê-lo espontânea e publicamente.
Agora é a vez de o senhor professor fazer o mesmo, demonstrando, assim, um grande gesto de humildade, próprio de um líder exemplar.
E, com um forte abraço, ambos selariam o caso.
É que os verdadeiros guias da humanidade não são os dominadores pela força, mas sim os servidores pela dedicação.
Marcolino Félix Pereira