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Entre turistas e o vento que empurra as tendas, acampada do Rossio promete resistir

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Foto Manuel Fuentes/EPA

Os manifestantes pelo direito à habitação que dormiram esta noite no Rossio acordaram sem polícia perto, mas com turistas a fotografar e um vento forte que empurrava as tendas vazias para a estrada.

"Isto faz aqui um vento incrível", disse Ana, pouco depois de ter ido buscar uma tenda que quase atravessava sozinha a passadeira do Rossio em direção à Praça da Figueira.

Na manhã de hoje, o dispositivo policial que vigia a acampada do Rossio é residual e é o vento que é o principal adversário. "Acho que preferia os polícias, chiça", reclamou Ana, com um sorriso irritado.

Bruno, 30 anos e um dos promotores da manifestação, disse à Lusa que "a polícia desmobilizou às três da manhã", um primeiro sucesso dos manifestantes, que contou com o apoio de muitos portugueses anónimos.

"Se a acampada não tivesse a participação de tanta gente que temos de agradecer, se calhar, era mais fácil afastar-nos daqui", explicou o engenheiro informático, que diz ter passado bem a noite.

"Dormi como uma pedra, como o chão", respondeu, apontado para a calçada portuguesa onde não é possível colocar estacas para fixar as tendas.

"Nota-se que há uma solidariedade popular" e "estamos aqui para ficar", avisou o ativista, que se queixa de rendas desumanas.

"Eu tive sorte, mas também sei que sou um privilegiado porque tenho um bom salário e consegui arrendar uma casa sem contrato, mas tudo isto é injusto. Muito injusto", desabafou.

Entre as reivindicações, o grupo exige o fim da reforma da lei das rendas, aprovada na especialidade pelos partidos de direita, mais parque habitacional público ou o fim dos despejos para quem não tem outra opção.

"Hoje é hoje, amanhã será outro dia, mas só iremos sair se as nossas reivindicações forem atendidas", disse, enquanto comia uma bola doce distribuída gratuitamente numa banca, onde estava um cartaz "Aqui há capitalistas".

Junto à estátua, perto da acampada, colocaram-se cartazes onde se podem ler frases como "Luís, egoísmo é roubarem o nosso futuro", "a minha herança vai ser uma crise de ansiedade" ou "Se não há justiça para o povo, não haverá paz para o governo".

Lugi e Ana, um casal reformado de professores, turistas de Turim (Itália) que visitam Lisboa nestes dias, discutiam os motivos da manifestação.

Luigi, de direita, criticava os jovens e lamentava "a forma como a juventude europeia foi conquistada pelo 'wokismo'".

Ana, de esquerda, ria-se do marido e aplaudia os ativistas. "Têm de ser vocês a fazer alguma coisa pelo vosso futuro", disse à Lusa.

A poucos metros, Pedro Lourenço, 26 anos, ainda a viver em casa dos pais em Mafra, entrevistava outros turistas com uma câmara compacta para publicar nas redes sociais.

"Quero captar a essência deste movimento e esta energia incrível", mas também "abordar as pessoas que passam", porque "não podemos viver em bolhas separadas", explicou.

Quando aborda turistas estrangeiros ou portugueses, a resposta é díspar, reconheceu.

"Há muitos que sabem o que se passa em Espanha e são solidários, mas há outros que nos dizem para ir trabalhar. É normal isso", disse.

Mas depois de uma primeira conversa, as reações negativas mudam. "Se me deixam explicar o que defendemos, torna-se mais simples. Nós só queremos um direito a ter uma vida justa. E alguns mais velhos que, de início, eram contra isto desejam-nos 'boa sorte' na nossa luta", acrescentou Pedro Lourenço.

Quanto a segunda-feira, muitos dos ativistas já discutem como conciliar trabalho e o protesto.

Mas esse não é o caso de Bruno.

"Eu até estou em teletrabalho, por isso, não tenho problemas em continuar aqui. Vantagens da informática. Só se bloquearem a internet", disse, entre sorrisos.