Seguro recebeu Obama em Belém para troca de impressões sobre actualidade internacional
O Presidente da República, António José Seguro, recebeu no sábado no Palácio de Belém, em Lisboa, o antigo líder norte-americano Barack Obama, "para uma conversa informal" e troca de impressões sobre a atualidade internacional.
"O Presidente da República, António José Seguro, recebeu, no Palácio de Belém, o antigo Presidente dos Estados Unidos da América Barack Obama, para uma conversa informal e uma troca de impressões sobre temas da atualidade internacional", lê-se numa nota divulgada no 'site' da Presidência.
A acompanhar a nota foi colocada uma fotografia do chefe de Estado português e de Barack Obama, sentados a beber um café na varanda do Palácio de Belém.
O antigo Presidente norte-americano foi ontem ao final da tarde o orador principal na sexta edição do Game Changers Forum, em Lisboa, com uma intervenção sobre liderança, resiliência e impacto.
A deslocação de Barack Obama a Portugal ocorre a menos de um mês das eleições para a totalidade da Câmara dos Representantes (câmara baixa do Congresso) e um terço dos lugares do Senado (câmara alta) nos Estados Unidos, marcadas para 03 de novembro.
As sondagens têm apontado para uma vantagem dos democratas, num momento em que o Presidente republicano, Donald Trump, enfrenta uma forte desaprovação.
Enquanto chefe de Estado, Obama esteve em Portugal em novembro de 2010 para participar nas cimeiras União Europeia-EUA e da NATO (aliança do Atlântico Norte).
Obama voltou a parar em Portugal, em novembro de 2016, numa escala técnica na Base das Lajes, na ilha Terceira, Açores, numa viagem entre a Alemanha e o Peru.
Em 2018, já depois de ter abandonado a Casa Branca, Obama abordou, numa conferência, no Porto, a importância de agir perante o problema que representam as alterações climáticas para o mundo, uma das prioridades dos dois mandatos presidenciais do democrata.
Obama lembra que presidentes não podem começar guerra sem aprovação do parlamento
O antigo líder dos Estados Unidos Barack Obama recordou, em Lisboa, que um presidente não pode iniciar uma guerra sem submeter essa decisão ao parlamento.
"Tecnicamente, um presidente não pode começar uma guerra sem aprovação do parlamento", comentou, recebendo fortes aplausos da audiência, durante a conversa em que participou no final da sexta edição do Game Changers Forum, no Meo Arena.
Obama, que ocupou a Casa Branca durante dois mandatos, entre 2009 e 2017, e recebeu o Nobel da Paz em 2009, não se referiu explicitamente ao atual Presidente norte-americano, Donald Trump, que não pediu autorização legislativa para desencadear os ataques contra o Irão.
O antigo Presidente democrata fez este comentário quando recordava "um dos problemas mais difíceis" que enfrentou nos seus mandatos: a guerra civil na Síria, onde o ex-ditador Bashar al-Assad estava "a matar o próprio povo".
Obama descreveu que se encontrava perante um dilema: como aliviar o sofrimento do povo sírio, mas respeitando a lei internacional, porque a Síria não tinha atacado os EUA e por isso não era possível "tomar uma ação para proteger as pessoas".
"Havia temas ligados à nossa Constituição", mencionou.
Obama reconheceu que, para a maioria das decisões que tomou, "não havia uma resposta clara, porque eram problemas difíceis".
"Tomei decisões não porque eram boas para mim politicamente, mas porque era o melhor para o país e para as pessoas", descreveu, mencionando que ouvia sempre diferentes opiniões dos membros da sua administração.
Também relatou que trabalhou para travar as armas nucleares, nomeadamente com acordos com o Irão, que Donald Trump revogou.
"Não se pode ter um modelo sem intervenção humana a decidir quando lançar uma arma nuclear. É uma decisão de várias pessoas e não apenas de uma", salientou.
Obama pede líderes que reconheçam "humanidade comum" e lamenta nostalgia por "América real"
O antigo Presidente norte-americano Barack Obama defendeu ainda a necessidade de líderes políticos que reconheçam uma "humanidade comum", lamentando a "nostalgia" da "América real" que se observa hoje nos Estados Unidos.
"O que precisamos agora é [de líderes] que representem o seu próprio povo e apreciem as tradições, cultura e história, mas também que vejam que quem está noutro país também tem esperanças e sonhos, que temos uma humanidade comum, mais do que desconfiança", afirmou o antigo líder democrata (2009-2017), intervindo no final do Game Changers Forum, no Meo Arena, perante uma plateia com dez mil pessoas, segundo a organização.
"É o tipo de liderança de que precisamos no palco internacional", insistiu.
Nos Estados Unidos, referiu, "tem havido um esforço de dizer que há uma América real, uma nostalgia de quando as pessoas negras eram silenciosas e não estavam na Casa Branca e as mulheres sabiam o seu lugar, na cozinha e em casa", recebendo fortes aplausos.
"O que precisamos agora é de líderes suficientemente confiantes que digam: 'eu quero viver num mundo onde as minhas filhas têm as mesmas oportunidades que os meus filhos, onde o meu vizinho não me ameaça e eu não sinto que tenha de ser superior'", comentou.
"Precisamos desse impulso democrático na nossa liderança e de líderes que compreendem os valores da democracia e da igualdade", salientou, acrescentando que são necessárias também "novas instituições que possam mover-se mais depressa para realmente entregar resultados às pessoas".
Para Obama, "um dos problemas" dos políticos de esquerda é que se tornaram "muito tecnocratas e burocratas".
"Podem falar destes ideais maravilhosos, mas nem sempre conseguem torná-los reais", comentou.
O antigo líder norte-americano considerou ainda que "o mundo tornou-se mais pequeno e mais rápido".
"Quando há grandes disrupções, as pessoas sentem-se inseguras e com medo e tendem a regressar aos nacionalismos extremos, sectarismos [...] Quando toda a gente está a fazer isso, gera conflito", disse.
"A coisa radical da democracia é que todos são iguais à luz da lei. [...] Eu posso ser melhor em algumas coisas do que tu, tu és mais rico e mais bonito, mas ambos somos cidadãos, temos um voto e temos dignidade e temos os mesmos direitos em termos de poder falar e influenciar o mundo à nossa volta", defendeu.
Mas, ressalvou, "essa ideia é frágil e tem de ser continuamente alimentada".
Obama insistiu também na necessidade de os políticos ouvirem as pessoas.
"Se dermos oportunidades às pessoas para falar sobre os seus interesses, se lhes permitirmos que participem -- e não é só votar - no seu bairro, na forma como as escolas podem funcionar, mesmo a níveis muito pequenos, quando as pessoas sentem que são ouvidas e falam umas com as outras, é aí que a mudança acontece", disse.
Mas, acrescentou, "raramente os políticos estão à frente das comunidades" e "direitos e liberdades muito raramente são dados às pessoas pela bondade dos corações dos líderes, mas porque são exigidos", como no caso dos direitos para gays e lésbicas.
Durante a conversa, Obama elogiou o conceito da União Europeia: "é maravilhosa" e "trouxe enormes benefícios".
No entanto, se as populações sentem falta de esperança no futuro económico, veem a habitação muito cara ou têm dificuldade em encontrar emprego, e percebem que as instituições europeias "precisam de fazer 15 reuniões" para tomar uma decisão, acabam por "ficar frustradas", acrescentou.
"Não nos dedicamos o suficiente a remodelar os governos para que sejam mais eficientes e tomem decisões mais rápidas e sejam mais responsivos para os problemas quotidianos", considerou.
Barack Obama sustentou que "os líderes que consigam fazer isso atraem mais as pessoas" e avisou que "o perigo é que os líderes autoritários frequentemente pensam que podem fazer tudo, podem quebrar as regras e fazerem o quiserem".
E isso, sustentou, "pode ser apelativo quando os governos democráticos não estão a trabalhar de forma eficiente e a tomar decisões rápidas".
O antigo presidente sublinhou igualmente que os líderes de hoje também têm de "comunicar nas redes sociais porque ninguém vê televisão".
"Também por isso é que acho que precisamos de mais líderes jovens. Os idosos não sabem usar os telemóveis", afirmou, recebendo mais aplausos.