A Prática do Pensamento Livre

Pensar criticamente é avaliar razões. Pesar a evidência, examinar argumentos, detetar falácias e estar disposto a rever as próprias crenças. Não é ceticismo de fachada nem mero espírito de contradição. Quem discorda sistematicamente da maioria continua a ser determinado por ela, só que no sentido inverso. A independência do pensamento intelectual não se mede pela posição que se assume, mas pela “qualidade” das razões que a sustentam. Pode chegar-se à mesmas conclusões generalizadas, ou a uma contrária, desde que o caminho tenha passado por uma análise própria. Ninguém pensa sozinho. Dependemos de especialistas, de Instituições e de quem nos antecedeu. Por isso, esta “independência” consiste em avaliar bem as fontes. Perceber quem as produz, sua metodologia e seu historial de acerto, sabendo em que ponto, e quando, a opinião dos peritos é convergente. Um leigo não pode verificar tudo, mas pode aprender em que fontes confiar, e desconfiar, proporcionalmente. Esta “independência” exige disposição para arriscar sem medo de falhar em público, treinando a sua tolerância à questão da “incerteza”. Exige também um inconformismo de disposição (não ceder sem razões), diferente do inconformismo de postura (discordar por natureza). A liberdade de pensamento e a ética não se opõem. O pensamento é livre, e a responsabilidade ética aplica-se ao uso que lhe damos e aos seus efeitos nos outros. Uma opinião “dura” pode ser verdadeira, mas a forma como é exposta não deve ser cruel. É aqui que a empatia importa. Compreende a experiência do outro sem a anular nem a caricaturar, ao interpretar o argumento oposto, nos seus pontos mais fortes, antes de o criticar, evitando o ataque gratuito ao seu argumento. Contudo, a empatia não deve servir para fugir ao desconforto. O pensamento crítico tem, por vezes, de dizer o que ninguém quer ouvir, sem acrescer dureza para além do que a verdade exige. O mesmo vale para a relação connosco próprios. Admitir os próprios erros com lucidez, sem negação e sem devastação, é condição do pensamento crítico. E, como não pensamos sozinhos, ajuda a troca de pontos de vista com outros. Na relação com a “autoridade”, conformar-se é ajustar-se ao “esperado”; submeter-se é ceder à “força” imposta; cooperar é aderir livremente a “regras comuns”. A fronteira entre cooperar e conformar-se passa pela possibilidade de perguntar, porquê? Recusar a “submissão” não é recusar a “autoridade”, mas exigir que ela também argumente. A liberdade de pensamento é uma prática que se renova. Reside na honestidade intelectual, na empatia e no respeito por quem pensa de outra forma, aceitando que também nós erramos e que podemos, e devemos, retificar.

Duarte Dusan Santos