Supermercados com poucas mercadorias e a preços mais altos
Muitos estabelecimentos comerciais continuavam hoje encerrados em Caracas, enquanto supermercados e farmácias retomaram atividade, embora com algumas mercadorias a esgotar e outras com preços mais altos, três dias depois do ataque norte-americano e detenção de Nicolás Maduro.
"Estive em Quinta Crespo [mercado em Caracas] e queriam cobrar os ovos a 800 bolívares por dólar, apesar de a cotação oficial ser de 308. Nos últimos dias os preços de vários produtos subiram várias vezes", explicou uma portuguesa à agência Lusa.
Cristina Abgail, empregada de escritório, está de férias e já não se surpreende com os preços dos produtos, que diz subirem sempre em janeiro, mas, desta vez, "estão a ultrapassar todos os limites".
"Em janeiro temos ainda mais uma situação a complicar tudo, a de que muitas empresas de distribuição de alimentos fazem férias, e por isso a distribuição só começa depois do dia 15. As pessoas a fazer compras com nervosismo acabam a comprar mais do que precisam e fazem uma gestão diferente do produtos", comentou.
Vários comerciantes explicaram à Lusa, por telefone, que continua a haver combustível, mas há receios de uma eventual rutura de stocks e sobre a capacidade de reabastecer o mercado.
"Depois temos o problema de qual será o custo da reposição dos produtos. Temos que vender a preços oficiais que estão sempre a mudar e isso poderá representar dificuldades, porque os custos já mudaram e porque é preciso mais dinheiro para se abastecer com as mesmas coisas", explicou um comerciante.
Araida Garcia esteve hoje de manhã numa farmácia na capital venezuelana e já encontrou menos de dez pessoas à espera, depois de dois dias de filas intensas.
"As temperaturas estão a baixar e o frio está a chegar. As gripes e constipações fazem-se sentir. Consegui comprar alguns anti-gripais e antibióticos para ter em casa, para estar preparada", disse, sublinhando que tem um filho de 06 anos.
Vários comerciantes descreveram ainda o ambiente em Caracas como "calmo, mas tenso e expectante", com presença das forças de segurança em várias áreas da cidade e a realizarem inspeções a motoristas e viaturas, principalmente ao início do dia e à noite.
Alguns estabelecimentos estão a funcionar em horário reduzido, encerrando pelas 16:00 horas locais (20:00 em Lisboa).
"Muitos [polícias] estão vestidos de preto e com a cara parcialmente tapada, o que causa algum receio. Fui parado três vezes quando ia para o meu negócio. Depois de verificarem a identificação e inspecionarem o carro, deixaram-me avançar", descreveu um deles.
O transporte público de passageiros está a funcionar, mas também com poucos passageiros, numa altura em que muitas pessoas estão de férias, fora de Caracas.
Os Estados Unidos lançaram no sábado "um ataque em grande escala contra a Venezuela" para capturar e julgar o líder venezuelano, Nicolás Maduro, e a mulher, Cilia Flores, e anunciaram que vão governar o país até se concluir uma transição de poder.
Maduro e a mulher prestaram na segunda-feira breves declarações num tribunal de Nova Iorque para responder às acusações de tráfico de droga, corrupção e branqueamento de capitais e ambos declararam-se inocentes. A próxima audiência está marcada para 17 de março.
A vice-presidente executiva, Delcy Rodríguez, assumiu a presidência interina do país com o apoio das Forças Armadas.
A comunidade internacional dividiu-se entre a condenação ao ataque dos Estados Unidos a Caracas e saudações pela queda de Maduro.
A União Europeia defendeu que a transição política na Venezuela deve incluir os líderes da oposição María Corina Machado e Edmundo González.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que a ação militar dos EUA poderá ter "implicações preocupantes" para a região, mostrando-se preocupado com a possível "intensificação da instabilidade interna" na Venezuela.