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Fact Check Madeira

Será verdade que “não há risco” de uma grande potência se interessar pela Madeira?

Estação de Radar n.º 4, no Pico do Areeiro.
Estação de Radar n.º 4, no Pico do Areeiro.

Na sequência dos planos da administração norte-americana para assumir a soberania da Gronelândia, houve quem colocasse em discussão na plataforma Reddit a possibilidade de “Trump acordar um dia de manhã e decidir ficar com a Madeira”. A maioria dos comentários desvalorizou tal hipótese. “Não há petróleo nem terras raras na Madeira, por isso não há risco”, referiu uma pessoa. Outra disse que os Açores têm mais motivos de interesse, devido à base das Lajes. E houve vários comentários que sugeriram que o nosso arquipélago não tem qualquer interesse geoestratégico. “O que tem a Madeira?”, questionou um comentador. Será que as grandes potências mundiais nunca cobiçaram o nosso arquipélago?

Antes de se responder a esta questão, há que sublinhar que não foi apenas nas redes sociais que o debate sobre a situação da Gronelândia derivou para a soberania das regiões autónomas portuguesas. Há precisamente duas semanas, o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, veio a público alertar que a União Europeia (UE) não pode esquecer as regiões ultraperiféricas, como Madeira e Açores, caso contrário isso "tem um preço no futuro", atribuindo as tensões sobre a Gronelândia à "menor atenção" àquele território autónomo dinamarquês. "É um contrassenso que a Comissão (Europeia), na sua proposta, esqueça as regiões ultraperiféricas quando justamente diz que quer ser geopolítica", afirmou o ministro.

Há vários documentos que abordam a importância geoestratégica da Madeira ao longo da História. O mais recente é um ensaio do historiador Paulo Miguel Rodrigues, publicado em Maio de 2025 na revista Arquivo Histórico da Madeira, com o título “O Arquipélago da Madeira: Espaço Geoestratégico no Mundo Contemporâneo (Séculos XIX-XXI). Passado, Presente e Futuro. Uma Visão Global”.

Este estudo aponta factos que mostram a importância do espaço insular madeirense nos vários sistemas internacionais desde o início do século XIX e o primeiro quartel do século XXI. A importância estratégica da Madeira resulta essencialmente de três factores estruturais: localização no Atlântico Norte, numa posição intermédia entre a Europa, a África e as Américas; função de apoio à navegação oceânica, como escala para reabastecimento, abrigo e controlo das rotas marítimas; e valor militar e político, sobretudo em contextos de guerra naval e de projecção de poder atlântico.

No século XVIII e início do século XIX, com o declínio do poder marítimo português, a Grã-Bretanha passou a exercer uma influência dominante sobre a Madeira, sobretudo de natureza económica e estratégica. Embora a Madeira permanecesse formalmente portuguesa, Paulo Miguel Rodrigues sublinha que existia um controlo informal britânico, aceite por Portugal como forma de protecção face a outras potências. Assim, durante as guerras napoleónicas (1801–1802 e 1807–1814), a Madeira foi ocupada militarmente pela Grã-Bretanha em duas ocasiões, com o consentimento da Coroa portuguesa. O autor sublinha que esta ocupação demonstra claramente que a Madeira era vista como um activo estratégico essencial no contexto das guerras europeias, apesar de não ser um grande território.

Nos séculos XIX e início do século XX, com o advento dos navios a vapor, do cabo submarino e da modernização naval, a Madeira manteve relevância como ponto de comunicações, escala marítima e espaço de interesse para potências marítimas. Apesar de não ser ocupada, continuou a ser observada e valorizada, sobretudo pelo Reino Unido.

Na I e II Guerras Mundiais, houve receio de ataques ou ocupações da Madeira por potências beligerantes e Portugal reforçou a defesa do arquipélago para preservar a neutralidade. Durante a II Guerra Mundial, a Madeira voltou a assumir um papel estratégico no Atlântico, ao ponto de o Reino Unido ter elaborado um plano secreto para a sua ocupação militar’. A primeira versão da designada ‘Operação Ripper’, datada de Fevereiro de 1942, envolvia cerca de 4.200 homens e 160 veículos. Previa um desembarque nocturno na Praia Formosa, realizado por comandos. Estimava-se que a operação estivesse concluída em cerca de sete dias, dado o fraco dispositivo defensivo da ilha. A ‘Operação Ripper’ foi reavaliada em 1943, mas acabou por não ser executada, devido à retirada progressiva dos submarinos alemães do Atlântico, ao sucesso das operações aliadas no Norte de África (Operação Torch) e à assinatura do acordo luso-britânico de 1943, que permitiu aos Aliados utilizar os Açores.

O pós-Segunda Guerra Mundial foi marcado por uma mudança do sistema internacional, com a emergência dos EUA como potência mundial e a diminuição relativa do peso do Reino Unido à escala global e, em particular, no Atlântico, além da afirmação dos interesses da URSS. A criação da NATO altera o eixo dos interesses até então prevalecentes. Passou-se do eixo britânico (N/S), para o eixo norte-americano (O/E) (e a Norte do Trópico de Câncer). Isto teve repercussões na redução da importância atribuída à Madeira. Ainda assim, foi neste período que, entre 1959 e 1960, se construiu o aeroporto do Porto Santo, disponibilizado desde o início à NATO para operações de patrulhamento marítimo na região sul da área ibero-atlântica (’Iberlant’).

No final da década de 1960, correu em Lisboa o boato de que a URSS pretenderia criar nas ilhas Selvagens uma base de submarinos soviéticos. Esse terá sido um dos motivos que levaram o Governo de Marcello Caetano a adquirir aquelas ilhas a Luís da Rocha Machado em Julho de 1971. Depois do 25 de Abril de 1974, alguns sectores da sociedade espanhola têm manifestado pretensões de soberania sobre esta parcela do território madeirense.

Paulo Miguel Rodrigues conclui que a Madeira, apesar de ter deixado de ser um território directamente disputado, continua a ter importância estratégica indirecta, associada ao controlo do Atlântico e à projecção marítima portuguesa e europeia. Daí resultam o investimento na Estação de Radar n.º 4 no Pico do Areeiro para reforço a vigilância e controlo do espaço aéreo nacional e da NATO e a preocupação com o recente trânsito de navios russos modernos pela ZEE da Madeira.

Tanto os factos históricos como as evoluções mais recentes mostram que a Madeira tem relevância geoestratégica, apesar de não ser comparável à que teve no passado.

Como a Madeira não tem petróleo nem terras raras, não há risco de uma potência querer assumir o controlo do arquipélago - sentido de alguns comentários na plataforma Reddit