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Fact Check Madeira

O Hospital Nélio Mendonça "já é um lar"?

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Não é de agora, nem começou com a venda do edifício. A ideia de que o Hospital Dr. Nélio Mendonça “já é um lar” reaparece sempre que o internamento fica bloqueado por doentes com alta clínica que não têm para onde ir. A diferença é que, desta vez, o ruído nas redes sociais da venda da unidade de tratamento público, anunciada pelo presidente do Governo Regional, coincidiu com números muito expressivos e com o debate político em torno do futuro do imóvel. E o assunto ganhou proporções e ondas de ‘choque’ na Região.

Os factos ajudam a separar percepção da realidade. Na verdade o hospital não mudou de função. O que se repete, ano após ano, é a permanência de doentes clinicamente estabilizados por falta de resposta social, fenómeno conhecido como “altas problemáticas”.

E há registo público, com números, em vários momentos. E alarmantes que causam constrangimentos a diversos níveis e sobrecarregam a gestão do Nélio Mendonça. Com isso surgem as denúncias e com elas as notícias.

Em Novembro de 2021, os dados citados publicamente apontavam para 16 casos. A 31 de Janeiro de 2024, já eram 221 “altas problemáticas”, segundo números atribuídos ao SESARAM num comunicado político divulgado na imprensa regional. O DIÁRIO deu conta desses dados. 

Pelo meio, em Setembro de 2023, o secretário regional da Saúde referiu “mais de 150 utentes” nessa situação. Na mesma ocasião, apontou medidas como a hospitalização domiciliária, então com 60 utentes acompanhados, e sublinhou que a Unidade do Doente Frágil, desde 2021, ajudou a evitar que mais de uma centena de utentes ficasse internada por razões não clínicas.  

Já em Janeiro de 2025, o director clínico do SESARAM voltou a quantificar o impacto. Nessa manhã haviam 218 utentes com alta clínica ainda internados no Hospital dos Marmeleiros e no Hospital Dr. Nélio Mendonça, número que, no dia anterior, estava em 232. O mesmo responsável associou estas “situações sociais” ao esgotamento da capacidade de internamento e admitiu esperas por cama, incluindo em corredor de urgência.  

Em Março de 2025, a fasquia foi ainda mais acima, com referência pública a 321 doentes em “alta problemática”, valor apresentado em reacções políticas com base em números atribuídos ao director clínico do SESARAM.  

Se recuarmos mais, percebe-se que o problema não nasceu nesta legislatura, nem neste Inverno. Em debate parlamentar noticiado em 2018, o deputado do CDS, Mário Pereira, chegou a referir “cerca de 500 madeirenses” em situação de alta problemática no Serviço Regional de Saúde, distribuídos por várias unidades e até centros de saúde. A secretária regional da Inclusão apontava o aumento de pedidos em lista de espera para internamento, de 714 em 2015 para 955 no fim de 2017, e era referida a intenção de investir em mais 200 camas na rede de cuidados continuados.  

O que estes números demonstram é simples: há variação, por épocas e por capacidade de resposta, mas o padrão é persistente.

Estamos a falar de pessoas que não têm indicação clínica para estarem internadas e que, certamente, teriam cuidados mais adequados em unidades de âmbito social, como lares. Precisamos de muita ajuda da Segurança Social na resolução deste problema. Nestas 'altas problemáticas' temos muitas pessoas que tiveram uma doença aguda que as deixou com algumas sequelas, nomeadamente mobilidade reduzida, alterações cognitivas, e por força disso têm muito dificuldade em voltar para casa, as famílias não as conseguem receber, porque precisam de um cuidador ou de outro tipo de apoio para tal.  In DIÁRIO -director clínico, Júlio Nóbrega, a 10 de Março de 2025

Quando cresce a procura por infecções respiratórias, como gripe, o problema torna-se mais visível, porém a raiz está fora da medicina. As “altas problemáticas” ocupam camas de agudos, atrasam internamentos, empurram doentes para espera na urgência e condicionam a actividade programada. É também por isso que, em momentos de maior pressão, surgem leituras rápidas a confundir hospital com lar.

Chamar “lar” ao Nélio Mendonça é, no entanto, tecnicamente errado. Um lar é uma resposta residencial e social. O hospital é uma unidade de cuidados agudos. O que acontece é que, por insuficiência de respostas sociais, o hospital fica com doentes que já não necessitam de cuidados médicos diferenciados, mas que não podem ter alta efectiva por falta de vaga, por ausência de rectaguarda familiar ou por necessidade de adaptação da casa. E aí a coisa muda de figura, ou seja na prática não é um lar mas é como se fosse.

O Hospital Nélio Mendonça "já é um lar"?