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Fact Check Madeira

Vereadores do Chega foram de outros partidos?

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“Brigam as comadres, descobrem-se as verdades”. E quando um líder partidário atira para o ar que “as pessoas vieram de outro partido” e que “usaram o Chega para se elegerem”, a frase tem duas camadas: a política, feita de confiança e ressentimentos, e a factual, que só se resolve com datas, actas, filiações e registos. Vamos ao escrutínio.

O caso nasce de uma crise interna entre a estrutura regional do Chega e os dois vereadores eleitos à Câmara Municipal do Funchal. No meio do braço de ferro, Miguel Castro admite que não há “perda total de confiança”, mas garante haver “situações mal conhecidas”. Depois, concretiza: “As pessoas vieram de outro partido e não estão confortáveis no Chega”, insinuando que existia um passado político noutro espaço partidário e que o Chega teria sido usado como trampolim.

Nesta espécie de ‘ping-pong’ político, convém frisar que, em bom rigor, está a falta de dinheiro para actividade política dos vereadores porque o mesmo alegadamente estava a ser aproveitado para pagar uma assessora que "muito próxima" de Miguel Castro.

Logo a pergunta do fact-check de hoje é: Luís Filipe Santos e Jorge Afonso Freitas foram, ou não, “de outros partidos”, como afirmou o líder do Chega Madeira?

Comecemos por Jorge Afonso Freitas, porque aqui há rasto documental. Em Setembro de 2017, numa notícia do DIÁRIO sobre a Câmara do Funchal e a recusa de transferência de um engenheiro, Jorge Afonso Freitas surge identificado como alguém que interpreta a situação como “perseguição política” por ser militante do PSD e por colaborar na candidatura de Rubina Leal, então candidata social-democrata à Câmara Municipal do Funchal.

Esse registo é inequívoco em dois pontos e coloca-o politicamente ligado ao Partido Social Democrata e mostra igualmente a participação pública num projecto político concreto, associado a uma candidatura autárquica do PSD. Não se trata de uma simpatia ou de um apoio informal, mas de uma identificação partidária assumida num contexto político sensível. Em termos factuais, há evidência clara de ligação ao PSD antes de Jorge Afonso Freitas integrar listas do Chega.

Mas o percurso não se esgota aí. Ao longo dos anos seguintes, Jorge Afonso Freitas manteve ligação a estruturas e círculos próximos dos social-democratas, tendo apenas pedido a sua desvinculação formal do PSD em Junho de 2025, já com o objectivo assumido de integrar uma candidatura pelo Chega. A transição não foi súbita nem acidental. Foi uma decisão política consciente, tomada num momento em que o Chega consolidava presença autárquica e procurava quadros com experiência política local.

Passemos a Luís Filipe Santos.

O percurso político é claramente identificável e documentado. Luís Filipe Santos foi militante do PSD e teve participação activa na vida política local muito antes de surgir como vereador eleito pelo Chega. Em 2013, integrou listas autárquicas do Partido Social Democrata, tendo sido candidato à Junta de Freguesia do Imaculado, num processo eleitoral formal e público. Perdeu para Gonçalo Aguiar.

No entretanto o percurso político foi acompanhado por funções na administração pública, tendo Luís Filipe Santos exercido funções como inspector da Autoridade Regional das Actividades Económicas (ARAE), cargo que reforçou a sua ligação ao aparelho institucional e à esfera pública regional. A conjugação entre militância partidária, candidatura autárquica e exercício de funções inspectivas colocou-o claramente dentro do universo político-administrativo associado ao PSD durante vários anos.

É conhecido por ser filho de Gonçalo Nuno Santos, antigo rosto das Comunidades Madeirenses, uma figura também muito próxima da governação de Alberto João Jardim. Com a chegada de Miguel Albuquerque ao poder, Gonçalo Nuno é colocado à margem ao ponto de assumir uma ruptura com o PSD-M sendo candidato à Assembleia da República pelo CDS/PP, na liderança de Assunção Cristas. De resto é na página do facebook de Luís Filipe que se pode ver algumas fotos do passado, muitas ligadas ao Marítimo, clube do coração, mas quase nenhum registo ou ligação ao PSD-M.

Os percursos de Jorge Afonso Freitas e Luís Filipe Santos desenvolveram-se sobretudo no plano da política de proximidade, das estruturas locais e do trabalho partidário de base, em contacto directo com o concelho do Funchal e com os eleitores. Ainda assim, o elemento essencial para este fact-check é inequívoco: ambos os vereadores tiveram percurso político no PSD antes de integrarem o Chega.

E chegados aqui, importa separar duas dimensões que frequentemente se confundem no debate político. Uma coisa é o juízo político sobre a lealdade, o conforto ou a identificação ideológica dos eleitos com o partido que hoje representam. Outra, bem distinta, é a veracidade da afirmação factual feita pelo líder regional do Chega.

E essa afirmação, quando reduzida ao essencial, é esta: “vieram de outro partido”.

Neste ponto, os factos falam por si.

Vereadores do Chega foram de outros partidos?